Academia Contagense de Letras - acl

*uma flor no asfalto*

PRAÇA DO ÁGUA BRANCA RECEBEU NOME DA ARTISTA QUE MOROU NA REGIÃO

Reprodução de matéria publicada no jornal "O Tempo Contagem" de 07/05/2010

 

Poesia e história juntas

A poetisa Maria Martins Vilaça mudou-se para Contagem em 1968 e dedicou sua vida à literatura e à comunidade da cidade, participando de projetos e movimentos.

Alegre, singela e otimista. Esses são os adjetivos do prefácio do livro "Folhas na Cama", lançado em 1988. As palavras referem-se à autora da obra, a poetisa Maria Martins Vilaça, que por 40 anos morou em Contagem. Ela morreu em 2008, aos 75 anos, por causa indeterminada. Para homenagear a artista, que foi uma das fundadoras da região do Água Branca, a praça localizada entre a rua Santana e avenida das Bandeiras, no bairro Jardim das Oliveiras, recebeu o nome da poetisa. A escritora Maria Martins é natural de Retiro dos Pintos, distrito da cidade mineira de Itatiaiuçu, e veio para Contagem em 1968, depois de ter sua vida marcada por uma tragédia. Maria Martins ficou viúva por duas vezes. A primeira com apenas 19 anos de idade e dois de casada. Seis anos mais tarde Maria perdia seu segundo marido. A partir dessas perdas, já com 25 anos, ela começou a escrever. Como conta a filha da poetisa, Vicentina Martins, a proposta para a homenagem, dando à praça o nome da poetisa, surgiu da própria comunidade. Ela explica que um abaixoassinado com 400 assinaturas foi entregue ao poder público, que sancionou a lei que mudou o nome da praça. Vicentina tem boas lembranças da mãe e reflete um grande orgulho de seu trabalho. "Minha mãe era tudo de bom para mim. Ela era sensível e generosa", diz. Ela conta que, quando tinha apenas 8 anos, viu sua mãe jogando fora alguns papéis. Ao perguntar o que tanto a mãe escrevia e jogava fora, veio a resposta: "são lembranças, coisas da vida". Entre os temas dos poemas de Maria Martins estão as lembranças do cotidiano e a natureza, além de homenagens a lugares e cidades por onde passou. Além de seu livro, a poetisa publicou trabalhos em vários projetos, como o Talentos da Maturidade. Também trabalhou na Escola Municipal Avelino Camargos e fez parte do Projeto Fala Mulher, da Coordenadoria de Políticas Públicas da prefeitura, em que, desde a sua implantação, participava da abertura de cada apresentação, declamando seus poemas.

Filha ainda tem outros projetos

Espaço cultural
Para continuar o projeto em memória da poetisa Maria Martins Vilaça, Vicentina Martins, filha da artista, busca apoio. Ela quer transformar a praça em um espaço cultural, que deverá atender tanto a população do Água Branca como a de outras regiões. Para isso, conta com a ajuda de patrocinadores. "Quero colocar a praça com o perfil de Maria Vilaça", diz Vicentina, ressaltando que o espaço sempre era usado pela poetisa, inclusive para fazer caminhadas. Ela também quer escrever uma biografia da mãe.

                         NOSSA MENSAGEM DE CONGRATULAÇÃO

A Academia Contagense de Letras congratula-se com os familiares de Maria Martins Vilaça pela nomeação da praça, em merecida homenagem prestada à sua memória.

"Estudei parte do ensino fundamental com o Thiago, um dos netos da poetisa, e nunca me esqueci de telefonema que recebi de Vicentina, filha de Maria Martins Vilaça, que entendeu e reconheceu o sentido do meu trabalho, sem carecer de elogios", diz Vinícius Fernandes Cardoso, membro da ACL.

"A vida e obra literária de Maria Martins Vilaça está devidamente contemplada na antologia da literatura brasileira escrita em Contagem que organizo desde 2001", diz o acadêmico. "Ressaltei do livro "Folhas na cama", da poetisa, o poema "Filhos Adotivos" (leia ao final), que é um retrato lírico da formação vegetal híbrida que (ainda) existe no canteiro central da Via Expressa na altura do bairro Água Branca, do lado esquerdo da pista para quem segue para Contagem. São duas árvores de espécies diferentes que estão unidas, que Maria Martins Vilaça nomeou de filhos adotivos. Várias pessoas já tiraram foto dessa formação vegetal, jornais já noticiaram, mas foi Maria Martins Vilaça quem fez o registro poético-lírico", diz Vinícius.

A Academia Contagense de Letras congratula-se com os familiares pela merecida homenagem prestada à memória da poetisa e convida os poetas da cidade a valorizar e prestigiar a praça.

A seguir, o poema "Filhos Adotivos", de Maria Martins Vilaça: 

 

 

FILHOS ADOTIVOS [1]

Maria Martins Vilaça, in Folhas na cama 

 

Existem coisas na vida

que a gente não sabe explicar,

são coisas da natureza

só ela sabe bolar.

 

São duas lindas mãezinhas

que moram na beira da estrada,

duas maravilhas da natureza

que devem ser preservadas.

 

Mãezinhas da natureza

por Deus foram criadas,

duas lindas mãezinhas

à beira de uma estrada.

 

Maravilhosas da natureza

por Deus foram criadas

duas lindas mãezinhas

à beira de uma estrada.

[1] A poesia é inspirada em duas árvores que convivem juntos no mesmo tronco existentes à margem da Via Expressa, já em Contagem, ao lado da marginal que leva ao bairro Conjunto Água Branca.

 

ADILSON ALENCAR

Morre em Contagem um gênio do entalhe

Por Vinícius Fernandes Cardoso 

 

             No dia 29 de julho de 2009, morreu o escultor Adilson Alencar, na sua propriedade no bairro Petrolândia, em Contagem. Seu corpo foi sepultado no cemitério do bairro Flamengo, no dia seguinte, às 17h.

            Adilson Alencar nasceu em São Gonçalo do Pará-MG, formou-se em jornalismo, mas aprendeu de forma autodidata o ofício de escultor, ao qual se dedicou por a vida toda. Foi casado, mas o casal se divorciou. Do casamento, nasceu Iago, uma criança de grande beleza e inteligência.

            Na última visita que fiz à sua propriedade, Adilson me disse sentir profundamente a sua separação do filho, pois, com o divórcio, a mãe ficou com a guarda de Iago, que via o pai uma vez por semana.

            Nesta visita, Adilson me mostrou seus últimos trabalhos artísticos. Ele tinha criado um material original, uma mistura rara de papelão com madeira, criando um material novo; Adilson se importava muito com a qualidade dos materiais com os quais trabalhava. Fiquei admirado com o novo suporte e com a arte realizada em cima dele, o colorido e o traço. 

            Como homem de discernimento, Adilson separava o seu trabalho ordinário das suas obras de espírito, estas últimas de criatividade e singularidade. Mesmo quando o escultor fazia réplicas de obras consagradas, como “O Velho Guitarrista” (foto) de Pablo Picasso – onde o tema é pintado com tinta óleo sobre tela, mas em Adilson em entalhe sobre madeira – o escultor sempre colocava um toque seu; toque esse que alguns não gostavam por “cobrar” fidelidade à obra original, mas outros valorizavam, percebendo exatamente no “tcham” o estilo do trans-criador, que recria a réplica, não fazendo uma mera cópia mecânica.

            O escultor sobrevivia das encomendas que recebia (móveis, mobílias, portais), dedicando-se a elas o mesmo esmero com que se dedicava às suas obras. Também aí, às vezes, era censurado pelos contratantes pelos “caprichos” e “floreamentos”, mas o artista sempre argumentava em defesa da sua arte, fazendo o contratante enxergar o que os olhos cansados do contratante não enxergava, mas que o olhar do artista conseguia alcançar.   

            Ainda nesta visita, perguntei a Adilson sobre a possibilidade de expor o seu trabalho numa exposição. Ele foi calmo de tranqüilo na resposta: não tinha paciência com marchand. Para quem não sabe, marchand é o agenciador do artista plástico, que agencia com o objetivo de ganhar dinheiro, assim como existe o produtor musical na música e o agente literário na literatura. Posicionando-se, Adilson optou pelo caminho da arte sem constrangimentos, sem assédios, não necessariamente da “arte pela arte” (não se trata disso, aviso aos bem-pensantes), mas da arte livre, a que deixa o espírito, a liberdade e a virtude agirem sobre o artista, produzindo a obra, e sem submeter essa obra aos constrangimentos mundanos. Adilson teria ficado conhecido se tivesse optado pelo outro caminho, o caminho do respaldo, dos pares e do público. Mas optou pelo caminho do sacerdócio solitário com seu ofício, com seus momentos de solidão que devem ter lhe dado paz e inspiração para criar suas obras.

            Certa vez, Adilson me deu uma lição que nunca esqueci. Quando estava trabalhando na casa da minha família, atendendo a encomenda do meu pai, o escultor requisitou a minha ajuda numa pequena tarefa. Eu disse que podia ajudar logo que terminasse um “favor” que estava fazendo para minha mãe. Disse displicentemente, sem pensar nas palavras. Foi quando Adilson me disse que nós, filhos, nunca fazemos favor para nossas mães, que, por mais que façamos algo por elas, além de ser nossa obrigação, sempre estaremos em dívida com nossas mães. É evidente que eu pensava como Adilson, mas foi valoroso ele me lembrar disso novamente, na frente da minha mãe, pela importância do momento e da lição.

            Quero me lembrar desse Adilson, o homem de lição e o artista de gênio.        

 

Contagem, julho de 2009.

                                               MEU POETA

Adriano Ribeiro *

 

 

Nascido no município de Betim, Fernando Lima, autor do livro Subjetividade, oferece ao leitor um ideário temático cotidiano em que o poeta participa da cidade onde vive, seus sofrimentos, suas inquietudes e, ainda, das pessoas à sua volta.

Anoitecer em Betim” é o poema- preâmbulo a revelar a paisagem, traduzindo a essência da vida no coração do lar: “Nem tão só me sinto assim,/ Quando a lua clara no céu/ Faz um ‘lumiar’ pra eu ver/ Minha terra acender,/ No anoitecer em Betim”.

“Purificar os pensamentos!”, nesse segmento o poeta evidencia os prazeres contrapondo a guerra. Ocorre, transparência da harmonia interior do autor, no poema em “O sonho da Terra”.

Custódio José de Oliveira, presidente da Academia Betinense de Letras[1] já disse, muito bem, no prefácio:

Subjetividade, a meu ver, é uma fotografia em versos do próprio mundo interior de Fernando. Cada poesia representa verdadeiro retrato do “subjectum”, do “introspectum”, do “eu do poeta.”

Acrescente-se que Fernando permite ao leitor entrar na intimidade das suas frustrações, ao dizer: “Revelo o ser inanimado./ Tragado por caos interior,/ sufoco meu grito poético!”.

A crítica social abarca vários títulos da obra. Em “Liberdade ainda que tardia”, por exemplo, preocupa-se o autor com o país, utilizando jogo de palavras, indagando sobre duas personalidades que defenderam, em Minas, a liberdade.

O consumismo imposto pela sociedade industrial, cada vez mais dominada, é contestado em “Sono Urbano”, em que se retrata “o povo sonâmbulo”, sendo dominado pela “Alienação;/ Manipulação;/ Exploração”.

Há exemplo de sentimento pessoal e de respeito a mulher, em “Mulher Mitológica”, e “Olhos Negros”. Este, inclusive, vêm acompanhado de intertextualidade ao descrever o corpo de Iracema, que remete à obra de José de Alencar.

Mas o poeta vai mais longe, revelando a “Sereia de Mineiro”, mostrando se galanteador, conforme escreveu “Morena que vem de Vitória/ Musa que vem pelo Mar”.

Entre os versos, eis que surge evidentes sinais do homem de fé.

Subjetividade, de Fernando Lima, comprova que a poesia revela o sentimento do homem, às vezes compensando a angústia e às vezes bastando a alegria para as coisas mudarem.

"Meu poeta", como venho modestamente chamando-o, começa a destacar-se no meio literário. Parafraseando-o, "agora podemos vê-los", refiro-me àqueles poemas prometidos antes desta publicação.  

 

* Adriano da Silva Ribeiro nasceu a 02 de novembro de 1977 em Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais. Morou em Contagem durante 20 anos. Magistrado.

           


[1] Durante muitos anos, Custódio José de Oliveira conduziu a Academia Betinense de Letras ABEL, cujo patrimônio e sede ficava na sua residência particular. Após uma crise institucional nos anos 2000, Custódio ficou isolado e a ABEL recomeçou nova fase de sua história sem a tutela do ex-presidente. 

 

DE MANOELZINHO PARA O MUNDO

 Por Vinícius Fernandes Cardoso

 

 

QUEM É MANOELZINHO? Apenas mais um na multidão, o intervalo entre sua data de natalício e de óbito, apenas um nome, podemos dizer, conclusivamente. Logo nasce a criatura humana e lhe é atribuída um nome. Atribuições. Nada tem sentido, digo ao amigo Ailton Magalhães e ele responde que o sentido é atribuído, nós atribuímos sentido à existência. E, como sabiamente verificou Drummond, “as existências são poucas, carteiro, poeta, ditador”. Se o for assim, Manoelzinho é o que podemos chamar de um epistólogo, ou seja, ele escreve epístolas, cartas. Manoel José utiliza-se dos Correios para vender livros num país de duas mil e cem livrarias e três mil e quatrocentas bibliotecas. Possui uma mala-direta de cerca de sete mil endereços, envia cartas para todo o Brasil e para o exterior. Já recebeu respostas de Cuba, Portugal, Israel.

 

Manoelzinho teve uma formação evangélica, leu toda a Bíblia, cursou mecânica de automóveis no Senai e publicou durante três anos um periódico interno.  Sua professora, Teresa Cristina, o incentivou a escrever. Para lhe incentivar a ler teve uma amiga bibliotecária na Escola Municipal José Fina, no bairro Bela Vista, em Contagem. O garoto leu toda a obra de Marcos Reis [literatura infanto-juvenil paradidática] e Francisco Marins Martins, escritor brasileiro cujo estilo lembra Monteiro Lobato. Leu as séries Os Clássicos, Taquara Poca e Vaga Lume. Mais tarde, o leitor passará os olhos por páginas de Pablo Neruda, Cecília Meirelles, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado e entre seus conterrâneos já leu alguns dos emocionais textos de oleira Maria Cristina e dos versos “verdadeiros” do poeta Fernando Januário. Graças à professora e a bibliotecária, hoje, Contagem e o mundo contam com um escritor atuante.

 

Entre março e abril de 2003, Manoelzinho enviou aos seus destinatários “amantes literários” uma Carta maluca, uma Carta de amor, e uma missiva intitulada Atual sistema literário. Motivado com as presenças dos fanzines Panfletário, de minha autoria, Toscomondo [com versão e-zine: toscomondo.blogger.com.br], de G.A. [aquele que lhe apresentou o conceito de atitude], Sociedade dos Poetas Mortos, de Isa de Oliveira, no dia 17 de fevereiro de 2003, em homenagem aos três anos de sua filha Mary Isabel, Manoelzinho publicou quinhentos exemplares do Epidemia Literária, onde constam recortes dos fanzines referidos acima entre outros textos.  A epidemia se espalhou e conquistou leitores em Ceilândia-DF, em Aracruz-ES, em São Paulo, entre outras localidades. Em julho, Manoelzinho disseminou cinco mil exemplares de seu vírus literário. Em outubro de 2003, inspirado pelo formato cartaz do periódico Paralê-lo, porta-voz da Academia Contagense de Letras, nosso missivista publica Os Emergentes, encarte do Epidemia Literária, e funda a imaginária Sociedade dos Escritores Emergentes. No primeiro encarte o emergente número um é o próprio Manoelzinho. Outros textos informativos compõem este cartaz.

 

Li três pastas contendo textos de Manoelzinho. Alguns datam de 1992, outros de 2002. Nestes, vida e obra estão entremeadas, biografia e grafia confundem-se. Lembro oportunamente que, tanto o texto referencial quanto o texto dito literário, em última instância, devem ser encarados como discurso, e por serem discurso, utilizam-se de mecanismos e recursos discursivos, que ora podem sugerir uma aparência de realidade ora de ficcionalidade; na verdade, reservadas as diferenças estéticas, éticas, intencionais e textuais de um modo geral, ambos constituem-se dos mesmos elementos discursivos. Comunicação, prescrição, autobiografismos, diário, textos-temáticos, crônica, eu, mensagem, são traços verificados na prosa espontânea e fluente de Manoelzinho. Se o texto primeiro permite espontaneidades e fluências, assim não deveria ser com o texto final. Revisar, revisar e revisar, eis três conselhos solenemente ignorados por nós, maus escritores.  A formação evangélica, o desenlace matrimonial, a filha, a visão de mundo, tudo isso é latente nos textos de Manoelzinho. A obra apresenta-se como extensão de traços de personalidade e do cotidiano e ao mesmo tempo como desejo de fuga dos mesmos. Constatei uma evolução formal nos textos de 1992 para 2002 sendo mantido o diálogo com o leitor a fim de prescrever um certo otimismo e crença no ser humano, algo difícil de assimilar depois dos genocídios do século 20:

 

A BOMBA

 

Minhas idéias, pensamentos transcritos em mensagem

de combustão acumulada, entaladas dentro do meu ser,

afogadas nas minhas emoções...um dia ainda...espero que

não esteja longe este dia...um dia estas idéias, pensamentos

que transformam a cada dia esta mensagem há de emergir e

se escoar nestes anos de desconhecimento como uma bomba e

irá explodir e mostrar em cada fragmento de sua explosão o

caminho do sucesso. Não meu, mas o sucesso da humanidade...

                                                         [18 de dezembro de 1995]

 

A escrita de Manoelzinho deve ser entendida como partícipe do labor e prolongamento do ser, cheia de rastros e indícios. Deve ser entendida como registro e diálogo fraternal com o Outro; estabelecendo uma comunicação simplória e direta capaz de percorrer longos territórios e ser lida no seu frescor humilde em outras localidades. De Manoelzinho para o mundo. Bendita seja a carta-social.

 

Manoel José, o Manoelzinho, nasceu em Belo Horizonte no dia 23 de julho de 1974. Sempre viveu em Contagem.        

   KENNEDY CÂNDIDO, ESTILO E ESTUDOS CULTURAIS *

Por Vinícius Fernandes Cardoso

 

            AOS ESTUDOS CULTURAIS [Inglaterra, Centro de Estudos Culturais Contemporâneos da Universidade de Birmingham, 1969] interessam as formas subjetivas de expressão. Muitos escritores marginalizados ou menores podem se legitimar a partir de uma abordagem culturalista. Kennedy Cândido se insere neste grupo de escritores. Poeta e prosador, autor de A Essência Encantada [2001], poemas, Asas da Liberdade [2001], pequenas prosas, em janeiro de 2003, Kennedy Cândido lançou o CD Bosque da Poesia, vinte faixas, poemas declamados pelo autor e sonorizados por Nadilson Assunção (Contagem: Sonarte Stúdio, 2003).

            Kennedy Cândido trata-se de um escrevinhador catártico, produtor de uma linguagem desmesurada: “Ressurgir renascer na esperança” [faixa 12], “vejo a cidade iluminada no turismo elegante / vou também para o interior no bosque da esperança” [faixa 13]. Repetições, seqüências, lugares-comuns, construções frasais marcadas pelo excesso, adjetivos em demasia, locuções adjetivas a perder de vista. Nosso poeta é identificável. Segundo Antoine Compagnon, em O demônio da teoria, literatura e senso comum [Editora UFMG, 2001], “o estilo é um conjunto de traços característicos de uma obra que permite que se identifique e se reconheça (mais intuitivamente do que analiticamente) o autor”. Quem escuta o CD Bosque da Poesia de Kennedy Cândido logo identifica um estilo que atravessa a obra.

            Do CD devemos ressaltar o papel do sonorizador. É justo afirmar que a sonorização se casa harmoniosamente com os temas dos textos e com a tônica declamatória do poeta. Esta capta o estilo do autor, e partir daí, busca uma sintonia entre palavra e som. A sonorização prenuncia, acompanha e prolonga o efeito estético da palavra. Nas faixas 16 e 17, por exemplo, a abertura musical convoca o texto. Em Pensamento enroscado [faixa 17], após pronunciar “Pensamento ao vento, distraído, espera aí...” acontece uma quebra, muda-se o ritmo, aqui se trata de adequar-se ao texto, não permitir a monocórdia, e assim evitar a monotonia, efeito indesejado neste caso. Ao fim da declamação, a sonorização prolonga o efeito estético da palavra ora mantendo o ritmo e diminuindo o volume [faixas 2,3,9] ora realizando  desfecho sonoro [faixas 1,7,8]. Em vários momentos, o poeta utiliza a ênfase, própria do discurso elaborado: “no caminho iluminado da paz” [faixa 10], “e tudo não passou de um sonho” [faixa 15].

            Kennedy Cândido declama ininterruptamente, em algumas faixas o sonorizador precisou incorporar pausas através do programa de gravação. Essa declamação ininterrupta associada a alguns textos de discurso fragmentário [faixa 18] exigiu habilidade do sonorizador. Percebe-se que o excesso, manifestado no texto e na voz de Kennedy Cândido, lhe é característico, o identifica entre outros autores.

            “O Kennedy Cândido com sua voz doce conquista platéias”, “O estilo dele pode ajudar a popularizar a poesia”, são afirmações colhidas sobre o poeta. No círculo de pessoas que o conhecem, o poeta é freqüentemente associado aos seus poemas, voz e atuação, há uma fusão entre obra, autor e performance, o que permite dizer que Kennedy Cândido é identificável devido aos caracteres que lhe são sintomáticos. Afirmar uma singularidade pouco fundamenta uma análise e mais promove um chavão. Tentemos elucidar.

            O fato é que nosso poeta das essências não está preocupado em alcançar uma forma “perfeita” [concepção clássica/grega de Beleza] ou alcançar a “plenitude” [esforço criativo] do seu estilo. Kennedy Cândido conquistou um estilo ao oferecer indícios que o identificam, no entanto, não se trata de conquista consciente, deliberada, pelo trabalho estético suado, como faria um João Cabral de Mello Neto. O que se percebe aqui é um estilo espontâneo [esquemético?], que devido ao treino, não chega a ser natural. Talvez, não sei, Kennedy Cândido lembre o bailarino pensado por Marllamé, que de tanto ensaiar, transmite naturalidade ao atuar. Será?        

            Kennedy Cândido tem consciência de sua obra, antes e após a criação, ao julgar os poemas e indicar os prediletos. Todavia, no ato da criação o que fica evidente é a catarse, a escrita compulsiva. Quando a catarse não é a característica mais notável, constata-se a presença a presença de um poema esquemático, não propriamente o poema construído a partir de uma pré-definição. Em Bosque da Poesia, as faixas 2, 8, 9, 10, 11, 12 são temáticas, pré-definidas e elaboradas a partir da auto-encomenda. Até mesmo nestes textos pré-definidos o poeta emite versos em demasia.

            Por isso que Kennedy Cândido trata-se de um escrevinhador desmesurado. A evidência do estilo em sua obra resume-se basicamente em constatar seus caracteres literários e performáticos. De seus textos, o preferido pelo poeta é o intitulado Essência de carinho, premiado no Festival da Juventude (bairro Novo Riacho, Contagem) de 1986. A mancha gráfica deste texto no livro A Essência Encantada é totalmente infiel [e não precisa ser fiel] em relação à declamação presente no CD Bosque da Poesia. No livro, o texto possui um formato quadrado, as pausas são diferentes das pausas empregadas na declamação.

            Kennedy Cândido não é um poeta da escrita, é essencialmente um poeta da voz. Pode-se afirmar assim que seus livros servem de memorizadores, texto-acessório, à declamação. 

            A repetição de palavras e expressões em Bosque da Poesia permite afirmar que nosso poeta constrói vários textos a partir do mesmo modos operanti, léxico e [sintaxe particular]. Há um esquemão que responde as demandas criativas do poeta. Reescrevi Essência de carinho, poema-exemplo para perceber o perfil da produção de Kennedy Cândido. É o texto preferido do poeta.

            Lê-lo? Melhor ouvi-lo na voz radiofônica do poeta e pensar que poesia, linguagem densa e ritmada por excelência, como verifica Otávio Paz, também pode ser – por que não – uma essência encantada.

 

* A primeira versão desta análise literária saiu no livro Leituras e Andanças [2004]. Aqui, sai mantendo a primeira versão, porém, com alguns acréscimos e rescritas, a fim informação, clareza e correção.

  

 

                                PARTICIPAÇÃO PELA POESIA

Por Vinícius Fernandes Cardoso

O poema “Sociedade dos poetas mortos”, de Isa Maria Marques de Oliveira, acusa “Uma sociedade que quer e requer a verdade / não dita só em utopia / mas também em poesia”. A poetisa escolhe a participação pela poesia como forma de revelação de uma verdade. Trata-se de uma escolha consciente da natureza interior e resignada da poesia. E, para encontrar a verdade através da poesia, primeiro será preciso refletir sobre o caráter inerte e nostálgico da criação poética.

 

O poema inicia-se com as convocações: “Poetas do mundo inteiro, declamai-vos! Poetas do mundo inteiro, poetai-vos! Poetas do mundo inteiro, uni-vos!”. O terceiro verso cita o Manifesto Comunista: “Trabalhadores do mundo inteiro, uni-vos!”, explicando assim a escolha pela conjugação na segunda pessoa do plural. Ao final da seguinte estrofe: “Um convite, um grito, um sonho...”.

 

O poema abriu-se, houve a convocação, o convite. A terceira estrofe inicia-se problematizando a abertura: “Uma controvérsia, de ourives de poesia, onde clamamos, chamamos e amamos, a inércia da nostalgia, escritas em verso-prosa, de nossas almas”.

 

A participação, presente na primeira e segunda estrofe, é uma “controvérsia” em relação ao trabalho estético do Poeta, “ourives de poesia”, em relação à “inércia da nostalgia” da criação poética.

 

Participação contrasta com abstração. Foram apresentadas a tese e a antitese. Vejamos a síntese: “Fazemo-nos de combatentes literários, mas carcerários de um sentimento inerente, de nossas próprias forças interiores (...)”.

 

A poetisa encontra solução para o impasse na fusão entre tese e antítese, participação e abstração. Isa de Oliveira brinca com a plasticidade do texto. Na última  estrofe: “É uma sociedade que quer e requer a verdade não dita apenas em utopia, mas também em poesia”, a utopia novamente é colocada em oposição a poésis. Enquanto a poesia está “para escrever majestosas palavras do sentimento humano”, a utopia está para o “ir a luta”.     

 

Isa de Oliveira separa ourivesaria literária de engajamento utópico-participativo. Consciente das naturezas distintas entre estas, a poetIsa opta por uma espécie de participação pela poesia [itálico meu], uma síntese, onde a palavra poética seria instrumento na busca de uma “verdade” que a sociedade “quer e requer”, instrumento de luta. Há uma urgência [“quer e requer”] de se chegar a esta “verdade”.

 

Platão expulsou os poetas da sua República por considerar a metáfora artifício de oclusão da verdade. Isa de Oliveira, no entanto, apresentando mais afinidade com o pensamento de Aristóteles, que enxergava a metáfora de forma diferente da do seu mestre, crê na capacidade da metáfora de desnudar as coisas, na capacidade da poesia de revelar aspectos inscritos no real.  

 

O livro Bagagem, de Adélia Prado, permite averiguar este dito caráter revelador de certos textos literários, senão do real, de interioridades, etc. Isa de Oliveira, no poema “Sociedade dos poetas mortos” [censuro apenas o título hollyodiano empregado desnecessariamente], atenta para este caráter revelatório de certos textos literários.

 

Isa de Oliveira nasceu em Contagem em 1985.  

                MÁRCIA SOUZA ALVES: POÉTICA DA ERRÂNCIA

Por Vinícius Fernandes Cardoso

 

                EM 1999, Márcia Souza Alves lançou mil exemplares do livro de poemas A voz do coração. Esgotou a tiragem. Como? Criatividade. O sonetista mineiro Leonildo de Oliveira usou uma estratégia inteligente para vender seus sonetos. Chegava final de semana, Leonildo fazia a barba, vestia terno e gravata, perfumava-se, em chia a mochila de livros e pagava rua. Parava no bar, olhava para as mesas; se fosse de homem, ignorava; se fosse de mulher, coçava a garganta, relembrava alguns versos e se achegava: “Boa noite senhoritas, meu nome é Leonildo de Oliveira, sou poeta, autor deste livro de sonetos... desejam ouvir uns versos?”. E assim Leonildo conquistou freqüentadoras de bares e, em três meses, vendeu novecentos livros de sonetos um tanto ruins.

 

Sangue e lágrima

 

                Em carta escrita à poetisa Márcia Souza Alves, escrevi que se apertasse A voz do coração sairia sangue e lágrimas. Com razão:

 

 

PERDÃO

 

Perdoe-me se te magoei,

eu que pensei apenas em mim,

venho agora compreender o verdadeiro motivo de sentir sua falta.

 

Eu que construí dentro de mim a ignorância, coloco agora meus pés no chão voltando à realidade.

 

Perdoe-me se fiz sofrer, quando precisei de ti ao meu lado. Perdoe-me quando pensei que não sentia sua falta, por fazer você chorar e não abrir o coração.

 

Perdoe-me pelo meu medo de revelar o que sentia, te fazendo meu eterno prisioneiro.

 

Agora reconheço que errei, reconheço que falhei.

 

Mas, tenta, pelo menos uma vez, aceitar, meu pedido de perdão pelo mal que fiz.

Por te fazer chorar.

 

Tente me compreender, me dê uma chance para viver em paz.

 

 

Trabalho itinerante

 

                Márcia foi de escola em escola munida de tinta, talento e seu livro. Vendeu todos eles. Apresentou performances ora ritmadas com baladas do pop/rock nacional dos anos 80 e 90, ora por solos de Van Rallen, de acordo com o estado de espírito e com a ocasião. Márcia é freqüentemente convidada a se apresentar. Participou de inúmeros eventos, Alfredo Oliveira, conhecido como Fred 3ºA, autor de Baralho 734. Ambos moradores do bairro Nacional, em Contagem.

                A presença do gestual e da oralidade na execução da poesia não se trata de uma novidade. Data dos gregos, dos poetas norte-americanos da geração beat. Curioso é que tanto os segmentos que tinham acesso aos valores culturais e que promoviam a oralidade e gesticulidade na poesia, tanto na Grécia como nos Estados Unidos, estavam inseridos dentro de culturas letradas, gráficas. Um adendo. No liceu grego era valorizado o diálogo. Muitas das importantes peças de filosofia, O Banquete, por exemplo, foram diálogos entre filósofos. Sócrates, inclusive, nada escreveu devido a sua convicção de que a fala exprime melhor o pensamento do que a escrita. O fato de diálogo ser valorizado, no entanto, não implicava necessariamente a desvalorização do código escrito... Voltemos a Contagem...

 

São poetas performáticos em Contagem: Lecy Pereira Sousa, Márcia Souza Alves, Fred 3ºA, e Kennedy Cândido. Assisti a apresentações de “poesia-jazz” do G.A., e também apresentações de Ivan Carlos e de Rudger Rodrigues, no entanto, foram participações esporádicas em alguns eventos do meio cultural da cidade. Mesmo os quatro mencionados acima não têm a performance como ganha-pão, como diz ter Makely Ka [Leia “Depoimento de um operário”, Suplemento Literário de Minas Gerais, agosto de 2003], poeta e músico belo-horizontino.

 

 

Poética da errância

 

                A despeito da poética de Márcia, verificamos poemas repletos de dor, solidão, angústia, arrependimento. Trata-se de uma poética da errância, lembrando o termo cunhado pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre. Errância porque ao tratar de desespero, arrependimento, solidão, a poesia de Márcia, de alguma forma, trata da miséria humana, da problemática experiência do estar no mundo, da experiência da dor. Talvez o leitor exigente acusará a desleitura e a utilização inexata do termo sartreano. Inexata, possível, imprópria, nem tanto. Ler a poesia de Márcia se equivale a sintonizar numa rádio e ouvir “I’m break my heart...”. Angústia, lágrimas, vontade, vazio. Se uma poesia de Márcia começar bem, não tenha dúvidas, termina mal.

                “Morro de vontade de você”, com este verso bombástico Márcia inicia seu livro A voz do coração [1999]. Vale lembrar que Márcia, com seus versos bombásticos e performance encantadora, garantiu o primeiro lugar no 15º Festival da Juventude ‘Arte contra as drogas’ [Contagem, agosto de 2002]. Márcia planeja lançar outra coletânea de poemas [e lançou, Pensamento Alado, em 2005]. Segundo a autora são “poemas mais elaborados, escritos e conjugados na segunda pessoa do singular”.

                Do último verso de Perdão aqui impresso, “Tente me compreender, me dê uma chance de viver em paz”, depreendemos um provérbio francês que, traduzido, significa “Compreender é perdoar”. Este verso nos remete a um brinco do pensamento humano. Este desfecho de poema, por exemplo, traz a mensagem [termo fora de moda nos estudos literários, seria a hora de revê-lo?] de que perdoar é um ato de empatia, compreender o Outro e assim o perdoar.

                Márcia escreve literalmente [sobre as coisas do] com o coração [pathos]. A partir desta informação poderíamos nos perguntar: quantos são aqueles que, assim como Márcia, têm arraigado o conceito de poesia como algo intimamente ligado ao pulso? Trata-se de um número considerável, respondo, poucos bons, muitos ruins.

                Escrevem, feita a transposição do estado poético para a linguagem, com o ritmo dado pela pulsação, sendo que, para muitos, a transposição do estado poético para o poema efetivamente realizado deve ser fiel às informações dadas pelo êxtase poético, o que trata-se de um impropério. Para sustentar tal afirmação seria necessário negar a transposição, dita anteriormente, necessária ao ato literário. Nem mesmo um positivista faria tal negação. O ato da escrita media, altera realidades previamente dadas. Mesmo o escrever sobre, o escrever sobre si, transfigura.

                Todavia, ao que nos parece, certos textos, devido à força com que se dirigem ao biográfico, na maioria dos casos; devido à coerência que estabelecem com o vivido, despojam-se da condição de mediadores do real e reivindicam para si [e os autores fazem tal reivindicação] o estatuto  de portadores do realmente acontecido, ignorando o caráter transfiguratório da linguagem literária: “Este texto escrevi quando estava assim”, “Este outro escrevi porque aconteceu aquilo”. Exatamente por isso que seria incorreto dizer que podemos escrever crítica literária sobre tais autores, pois, a crítica literária nasce a partir da exigência de análise de textos cujo estrato comunicativo é menos presente ou mesmo ausente em relação ao estrato estético [“A crítica vive da morte da comunicação”, escreveu o filósofo Gerd Bomheim].

                Em Márcia e noutros autores contemporâneos a comunicação se manifesta de forma tão afetada que torna-se impossível escrever propriamente crítica sobe suas obras.

                As amizades [“Não há boa literatura que valha um a boa amizade”, Drummond], as filigranas, rastros, resíduos, vestígios e indícios que tanto proporcionam prazer ao estudioso atento à gênese da obra literária, pois bem, destas informações me ocupei em minhas leituras e andanças.  Será que uma conversa amistosa acompanhada de um bom café pode ser considerada exercício de crítica genética?

                O fato é que as irradiações extraliterárias tão presentes nos textos de Márcia Souza Alves e de tantos autores que têm me achegado – a errância do estar no mundo, os humores e suores – me velaram inevitavelmente a atiçar os ouvidos para, mais do que ouvir, escutar estas vozes que vem do coração.]

 

Márcia Souza Alves nasceu no dia 24 de maio de 1983 em Belo Horizonte. Publicou a coletânea de poemas A voz do coração [Contagem: 1999]. Primeira colocada no 15º Festival da Juventude “Ar te contra as drogas” com o poema “Pensamento Alado”, título do seu segundo livro de poesias. Poetisa performática.

                     OS FLASHS DE ANDERSON RIBEIRO *

Por Vinícius Fernandes Cardoso 

 

Interessante no livro Algozes (1999), do contagense Anderson Ribeiro, é o texto de abertura “Viver, ou viver?”: “Este livro é, na verdade, uma ridícula carta de amor (...)” “É também uma crítica libertária, uma vontade, através da poesia (em todas as suas formas de manifestação) de dizer ‘não’ ao comodismo, ao conformismo, à covardia e à falta de percepção, algum de nossos maiores algozes, enquanto impedem-nos de descobrir e exercer nossas verdadeiras e vitais vontades”.

 Existem duas linhas de estudo para a compreensão da obra de Anderson Ribeiro, uma que se atenha ao prólogo referido acima e outra que se atenha aos demais textos de Algozes.

 

O estudioso que se enveredar pela primeira possibilidade irá se deparar com um texto crítico atravessado por leituras e percepções vivenciais cuja linguagem híbrida, comunicativa porém denunciadamente preocupada com sua estetização, ora embaralha o leitor com seus movimentos retóricos ora joga luz sobre questões de nossa época com grande poder comunicativo.

 

A revelia do autor, que dividiu o livro em capítulos, sendo, Sonetos, Canções, Quadras, Poemas e um E-mail, verificamos uma poética dística que atravessa todos os textos de Algozes, marca claramente evidente no primeiro texto do livro, In totum:

 

Cometer aliterações em teus ouvidos

Fazer a pele arder em teus sentidos

Misturar o som do gozo com os gemidos

Depois fazer silêncio dos ruídos (...)

 

O poema se desenrola em dísticos: “Cometer aliterações em teus ouvidos” que se colocam e sobrepõem-se seqüencialmente: “Fazer a pele arder em teus gemidos”. Conversando com a então universitária (hoje pedagoga) Priscilla Cândice Cursino, cuja escrita assemelha-se a de Anderson Ribeiro, utilizamos o termo flash para descrever as linhas textuais dela e as de Algozes. O termo, aqui fundado?, não há dúvidas, exprime melhor a poética de Anderson Ribeiro do que o termo dístico, este, bem empregado por Maria Luíza Ramos no estudo “O ritmo elegíaco” (pg.189 do livro Fenomenologia da obra literária), ao tratar do poema “Sofrimento”, de Henriqueta Lisboa. Diferentemente do poema de Henriqueta Lisboa aonde os dísticos, cada qual com sua unidade e força, estabelecem relação no conjunto do poema, no caso de Anderson Ribeiro, as enunciações aparentemente ligadas pelas estrofes e pelo soneto, em verdade, não apresentam unidade orgânica, a disposição destes lembra uma declaração de motivos. Não veja o leitor aqui depreciação, antes constatação. A abertura dos enunciados com verbos no infinitivo será uma marca recorrente principalmente no capítulo Sonetos. Arrisco entender tal recorrência da seguinte forma. Ao lermos o prólogo “Viver, ou viver?” verificamos que Algozes, mais do que uma obra para o deleite, pretende-se uma obra e intervenção e uma obra de nosso tempo. Daí a escolha do infinitivo, tempo verbal que por excelência exprime o aqui e o agora. Outra interpretação nem tão arriscada no caso de Contagem, repleta de obra vivenciais e personalísticas, poderia enxergar na recorrência de verbos no infinitivo a expressão de um traço de personalidade, um caráter “urgente” no autor de Algozes.

 

Mas, afinal, o que vem a ser um flash?

 

Diferentemente do verso aqui definido como “segmento que forma unidade de sentido ou unidade sonora”, aqui definimos como flash segmento realizado formalmente embora que não feche unidade semântica nem sonora, geralmente seqüenciado por outro, e, logo, partícipe de um texto “poético” desprovido de unidade orgânica. Podemos efetivamente construir uma seqüência de enunciados desconexos e não estarmos efetivamente produzindo um poema. Vencendo o imediato julgamento de que seria ruim o texto poético desprovido de unidade, proponho o termo flash para definir estas seqüências fonéticas cuja exposição de expressões subjetivas é mais imperiosa que a costura entre as linhas. Uma leitura  pouco detida de Algozes não perceberá as desconexões entre os segmentos, pelo contrário, as falsas junções, salvo as exceções, tenderá a desmentir a idéia de flash. Para evitar a má leitura, auxiliemos o leitor utilizando para o nosso exercício crítico o texto “Aquele que sabe” (pg.34):

 

01_ Pálida à noite em que te fez bem

02_ Feliz você por abrir os olhos mais uma vez

03_ Para saber o porquê

04_ Das cidades por debaixo das pontes

05_ Alça vôo  rumo à criação

06_ Seu vôo milenar

07_ Seu ar

08_ O chão

09_ O mar

10_ Sabedoria ritual

11_ Daquele que sabe

12_ A dor se foi

13_ Ao ver o totem

14_ Na pálida noite secular em que te fez bem

15_ Feliz você por abrir os olhos mais uma vez        

 

Primeiramente vamos apontar os enunciados desligados dos antecessores e, ao fazer os apontamentos, estaremos certos que o leitor irá perceber a pertinência das observações. Aparentemente a linha 14 estabelece relação com a linha 1, e a linha 2 estabelece relação com a linha 15. Mas lendo com sensibilidade estática o leitor irá verificar que se trata unicamente de uma repetição que poderia ser, inclusive, descartada. As repetições, quando solicitadas, possuem as seguintes funções: dar ênfase fonética (unissonância) ou semântica (aliteração). No primeiro caso temos como exemplo a letra de Chico Buarque “Café com pão, café com pão, café com pão” que tem como objetivo sugerir o som de uma locomotiva. No segundo caso, ênfase semântica, temos como exemplo poema de Garcia Lorca no qual o segmento “As cinco horas da tarde” repete-se para enfatizar o horário preciso no qual as tropas da ditadura de Franco (Espanha) saem as ruas para impor a autoridade inconteste. A relação entre as linhas 2, 3 e 4, e entre as linhas 5 e 6 são verdadeiras. Mas a ligação entre as linhas 10 e 11 e entre as linhas 12 e 13 apresenta-se artificial e tediosa. Desejo, no entanto, que o leitor enxergue que não existe um núcleo no qual entorno dele girem os pulsares de Anderson ribeiro. As relações entre as linhas são fracas, vaporosas. O que salta aos olhos em Algozes não é a unidade inteligível do texto, ou a musicalidade, como num Paul Verlaine (poeta francês), mas o pulsar de cada disparo. Daí dizer flash. Cada clarão de Algozes ilumina as “cartas de amor” de Anderson Ribeiro e diz “não ao comodismo, ao conformismo, à covardia e à falta de percepção”.

 

 Anderson Ribeiro nasceu a 15 de fevereiro de 1972, em Divinópolis, e atualmente vive em Contagem. 

      

* Ensaio contido no livro "Leituras e Andanças" (2004), de VFC.

      HÉLIO JOSÉ SILVEIRA BONFIM: O BARDO DA GRANDILOQÜÊNCIA

Hélio José Silveira Bonfim nasceu no município de Poções, Bahia. Aos 14 anos, mudou-se com a família para Teófilo Otoni, Minas, onde estudou em rígido colégio de padres holandeses. Aos 20 anos, seguiu com o primo para a cidade do Rio de Janeiro. Ali, fez bicos e vendeu lingüiça para sobreviver. Abrigou-se em casa abandonou junto de pessoas desconhecidas, chegou a passar uma noite sem teto, dormiu entre bambus na periferia da cidade, sujeito a todo tipo de adversidade natural ou crueldade humana. Sofreu covardias das mais atrozes, passou dificuldades de ordem material, financeira, emocional. No entanto, Hélio José Silveira Bonfim sobreviveu, e hoje, aposentado, vive com a sua família no bairro Boa Vista, em BH, antes cuidando da sua matilha, que teve que abrir mão por questão de saúde. Casado, pai de três filhos, Hélio José Silveira Bonfim tornou-se poeta, bardo, trovador de versos de Castro Alves e de composições próprias, marcadas pelo tom grandiloqüente. Em dezembro de 2002 é alçado por unanimidade à vice-presidência da Academia Contagense de Letras.

 

Talvez seja preciso um dicionário e uma gramática funcional para ler os poemas do senhor Hélio, devido a grande quantidade de vocábulos e neologismos. O signo predomina o texto do sr. Hélio, a expressão literária marcada pelo esmero criador. Leitor de Castro Alves e de outros autores do século 19, Hélio José Silveira Bonfim escreve como exercício de retórica. Dar ponto final a um poema trata-se de uma conquista cerebral. Alguns poemas do sr. Hélio foram escritos em um, dois dias, outros precisaram de semanas para ganhar ponto final.

 

Às vezes, sentimos dificuldade de ler os poemas do sr. Hélio, esbarrando num hermetismo de difícil penetração. Nosso bardo possui uma gramática própria, cujas regras, somente são apreendidas pelo leitor depois de atenciosas e repetidas leituras. Como exercício de retórica a serviço do enaltecimento, da elevação, constata-se que qualquer tema abrodado pela pena do bardo será enaltecido; assuntos triviais, encaixados na fôrma do poeta, ganham ares de grandeza. As poéticas de Hélio José Silveira Bonfim e Castro Alves são distintas, embora apresentem familiaridades. Se os dois têm característica explicitamente comum, trata-se da compostura viril e da pose airosa. Hélio José Silveira Bonfim trabalha o ritmo e o estrato fônico do signo. Para o nosso bardo é importante escrever bem. O fato é que o texto do sr. Hélio, ao se utilizar de uma gramática própria, automaticamente repele as normas do escrever bem e instaura um escrever bem heliano. Até mesmo porque a idéia de escrever bem hoje é mais freqüentada em outras áreas, como na comunicação social, cursos preparatórios, apostilas de banca, colunas de jornal. Quando o sr. Hélio declama, às vezes, não absorvemos de prontidão o texto declamado, mas nossa sensibilidade percebe que existe uma solenidade no ar, um enaltecimento, uma grandiloqüência.

 

Na Grécia Antiga era habitual o poeta cantar os grandes feitos da civilização, a morte de alguém importante, a vitória do exército, etc. Este poeta era o bardo, termo igualmente usado na Inglaterra medieval e pré-moderna, à época de Shakespeare. A partir da popularização do livro e da leitura individual, dos meios de comunicação, da urbe, o poeta distanciou-se cada vez mais da voz e aproxima-se do texto impresso. Ficaram para traz os arautos, trovadores. Neste novo período, não mais se canta, mas se escreve e se publica. Hélio José Silveira Bonfim escreve seus poemas em folhas pautadas com caligrafia cursiva caprichada. Ao mesmo tempo, ao declamar seus poemas com entusiasmo, o sr. Hélio revela que não está só para a es crita, está também para a voz.

 

Algumas pessoas pensam em poesia como sendo algo nobre, elevado, lembram os vultos da literatura, etc. Presenciar uma performance do sr. Hélio confirma tal idéia. O fazer literário do bardo remete a idéia de nobre ociosidade, de Eduardo Frieiro [Suplemento Literário de Minas Gerais, março de 2003]. Sua poesia serve de corpo de prova para as considerações de Olivreiros Litrento: "A poesia depende essencialmente da linguagem. Mas isso não quer dizer que a poesia seja feita somente de palavras". Digo isso, porque, antes de ser palavra, a poesia do sr. Hélio é feita de um querer-ser-guandiloqüente, que é um querer-ser-belo, fato pelo qual se dão os neologismos em alguns poemas, peças encaixadas com força no texto: o objetivo é escrever um texto belo. Poesia, força, voz: Hélio José Silveira Bonfim, o bardo da grandiloqüência.

           

 

  

Meu encontro com a jabuticabeira doce

 

 

Eis que surge de repente

Das estrelas de um céu todo limpo –

A figura de uma donzela entre toda gente,

Airosa, despercebida como um vinco.

 

Com um olhar de jabuticabeira doce,

Vagava por entre o ônibus na querença.

Seus cabelos deixavam-se um néctar de flores...

Sentada, bem sentada deixava-se sua aparência.

 

Longe sua mãe rezava por ela

Esta flor de escarlate, vinhais...

Esse amor vem de muito por seus ancestrais,

É assim que se tramita por espera!

 

Este sonho que começa em bons momentos!...

Meu príncipe aparece aos ares ventos

Alto, forte, como um guerreiro reservado,

A todo custo, o terei como conservado.

 

Este ao ver-me de tão perto assim,

Por saudades inefáveis de outrora!

Fazia-se por me servir como numa aurora,

Amor, muito amor, por ter em mim.

 

Quando acontecera este sublime amor,

De José de Alencar posto à prova esta verdade -

Este meu amor por ela, veio como um grande clamor,

Oh céus! tu trouxes da pátria cearense esta à assiduidade!...

  

 

(Do bardo Hélio José Silveira Bonfim)

 

 

leonardo de magalhaens: leitor e crítico literário

Por Vinícius Fernandes Cardoso

            Justiça seja feita a uma das figuras mais ímpares e uma das mentes mais lúcidas da geração anos 80 nascida na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Que venha a público a pena frenética deste jovem escritor que há muito vem contribuindo com o sistema literário no exercício de múltiplas funções. Primeiramente poeta, a quem o futuro reserva a maioridade nesta arte, Leonardo de Magalhaens, de Betim, somou uma série de atividades ao seu expediente de ombudsman das letras.

 

Tradutor de fôlego – do inglês e do alemão principalmente – a ponto de ilustrar o seu currículo com obras-primas da literatura universal como O Corvo, de Edgar Allan Poe, e Song of Myself, de Walt Whitman, Magalhaens, aliou à erudição de leitor completo, a sensibilidade de poeta na tradução de peças poéticas com alto grau de sofisticação, como as referidas acima. Por ocasião da intervenção literária “Sábado Beat”, promovida pela Academia Contagense de Letras em setembro de 2004, Magalhaens passou a verter para o português poemas de Allen Ginsberg, Ferlinghetti, Michael Mcclure, Gregório Corso, tornando-se um entusiasta divulgador (e praticante) da literatura beat, escrita e vivida nos Estados Unidos dos anos 50/60. Espírito roqueiro (hoje é cult, mas seu passado é trash) e admirador da boa música em geral, traduziu com delicadeza literária várias letras de rock and roll - destaque para as de Sid Barret do Pink Floyd por ocasião da homenagem da Oficina de Produção Artística (Opa!) realizada em janeiro de 2006 – conferindo-lhas maior poeticidade, salvando nós leitores das traduções medíocres disponíveis na Internet.

Outra importante atividade de Magalhaens é a de declamador, arauto. Seria errôneo designar sua prática de declamador como sendo a de performer. Não, Magalhaens não é um performer, um showman, nem mesmo quando força o ser, e, na minha opinião, deve resistir ao máximo ao assédio desta época de entretenimento (performances gratuitas) e manter a sobriedade da sua prática de orador puro, na acepção helênica, além do que, combina melhor com sua postura aristocrática. Segundo o Dicionário Aurélio, declamar é “Recitar em voz alta, com gestos e entonações apropriadas”, nada mais, nada menos. É isso o que Magalhaens sabe fazer, e bem. Ao contrário da performance, do show, no qual a aparência (mundo sensível, Platão) reina e subverte o texto (hoje por pura vontade de aparecer, antes, à época das vanguardas, por motivos de ordem sensível/estética/política), a oratória de Magalhaens, ao estilo clássico, busca comunicar o texto no seu conteúdo e ritmo, ou seja, na sua essência (mundo inteligível). O orador, fiel servidor da oração, convoca o corpo - postura, voz e gestos - na fiel execução do texto. A medida é o texto. E quando o texto trata de verdades sublimes (tragédia), temos a Grande Arte, no sentido clássico.

 Como produtor cultural, Leonardo de Magalhaens chegou a produzir de forma independente algumas atividades e efemérides relacionadas à sua grande paixão – a literatura – mas foi dentro das organizações e compondo equipes que ele mais atuou na realização de acontecimentos – principalmente na RMBH – relacionados ao universo das letras, do rock e da cultura underground.

Sua constante presença em efemérides literárias, ao que muito parece ser tempo livre, para Magalhaens é trabalho - até mesmo porque ele dedica loucamente seu tempo integral à literatura! -, é tempo utilizado para fazer contatos, traçar trabalhos conjuntos e praticar uma das suas atividades mais constantes: divulgar a literatura, tanto a escrita por ele quanto a de obra alheia, de escritores consagrados e desconhecidos, de hoje e de ontem, num gesto de desprendimento, generosidade e cosmopolitismo.

 Suas atividades de poeta, tradutor, declamador, produtor cultural e divulgador merecem artigos a parte, aqui pretende-se dar notícia da sua atividade de leitor e crítico de literatura, especialmente na recepção de obras literárias de escritores contemporâneos e conterrâneos, trabalho que presta um grande serviço ao sistema literário, numa época carente de uma crítica literária independente e militante, considerando-se que é o reconhecimento público que confere à obra literária um atestado de validade (ou não?).

A produção textual multifacetada de Leonardo de Magalhaens pode ser dividida e subdividida, esquematicamente, da seguinte forma: 1) Poemas curtos e poemas longos-“verborrágicos” (aqui onde encontra-se a sua grande criação a ser concluída com o título provisório de “Ode Sensacional”); 2) Crônicas de efemérides “fantasiadas” (bem saborosas); 3) Ensaios de leitura crítica sobre obras literárias alheias e Ensaios de divulgação de idéias; 4) Prosas curtas e contos fantásticos e os 5) Romances, ainda desconhecidos.     

 Como leitor e crítico literário, Leonardo de Magalhaens comentou Macbeth, de William Shakespeare, o modo de escrever de Clarice Lispector, assim como comentou livros de escritores brasileiros contemporâneos. Interessa aqui, especialmente, seus ensaios a respeito de obras literárias dos ilustres desconhecidos Deiwson Ferreira de Magalhães, Guiuseppe da Costa, Kennedy Cândido, Antônio Souza e Celso Botelho Falcão, escritores radicados em Contagem. 

Sobre Pensamentos de um sonhador, de Deiwson Ferreira de Magalhães, Leonardo escreveu o ensaio intitulado “O lírico e o onírico”, que apresenta uma levada platônica bastante interessante, aliás, acreditar no pensamento de Platão é demasiado sedutor. Já seus ensaios “Protesto lírico” e “Essência da fala poética” trataram das obras Asas da Liberdade e A essência encantada, respectivamente, de Kennedy Cândido. “Poesia na re-elaboração da memória” fez uma leitura da obra Flores no Pote, de Antônio Souza. O ensaio “O lirismo enquanto sublimação”, que lhe custou maior esforço analítico, é uma leitura da obra Luz crepuscular, de Celso Botelho Falcão. São leituras inteligentes marcadas pela capacidade de discernimento do crítico. 

Os referidos ensaios foram publicados no Jornal Regional Contagem, ao longo de 2006 e início de 2007. Com a publicação, pretendeu-se passar a palavra para quem tem realmente algo a dizer. Leonardo de Magalhaens, uma luz a brilhar em meio à sombria paisagem urbana.

UM POETA ENTRE NÓS, Um pouco mais de Yendis Asor Said

 Por Vinícius Fernandes Cardoso

  

I

 

"De longe eu vi um homem... Que parecia um mendigo... De amor tinha fome, parecia-se comigo”, esses são alguns dos muitos versos de Yendis Asor Said, palíndromo de Sidney  Rosa Dias, poeta que mora com familiares no bairro Água Branca, em Contagem.

                Sua primeira aparição pública no meio literário da cidade se deu durante o lançamento do automóvel Meriva, na Concessionária Mac Chevrolet. Convidada para abrilhantar o momento, a Academia Contagense de Letras-ACL lá estava corporificada na presença de poetas, escritores, performáticos e problemáticos, entretendo o momento com poesia e humor. Na época de sua aparição, o poeta já somava quatro pastas repletas de textos, a maioria, inéditos. Em 2002, passou a integrar os quadros da ACL e desde então sua simpatia ilustra o meio literário contagense. “Nei”, como é chamado pela família, nasceu a 16 de outubro de 1977. Gênio precoce, e tendo cedo que ganhar o pão com o suor do rosto, com treze, quatorze anos, passou a colaborar com os jornais Folha de Contagem e Verdade de Contagem. A mãe reivindica a influência sobre o filho no gosto pela leitura e escrita, a simpática Srª. Iracema. Com quinze, fundou e presidiu o Raul Rock and Roll Fã Clube que chegou a somar cinqüenta integrantes. Na época, publicou dois artigos em jornal, um sob título “Um tributo a Raul Seixas” e o outro intitulado “Rauzito continua vivo”.

                De filosofia, leu os chamados pré-socráticos, os sofistas, a tríade Sócrates, Platão, Aristóteles. Leu Mathias Aires, filósofo brasileiro. À frente, lerá Nietszche. Leituras livres dos principais livros sagrados: a Bíblia, Bragavad Gita (Índia), Tão To King (China), e, à frente, O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, Universo em Desencanto, O Alcorão, O Livro do Mórmon. Leu ainda Nostradamus e mitologias mil, da grega à nórdica. De literatura, gosta de clássicos e modernos. Camões e Bocage estão entre os seus preferidos no trato com a língua portuguesa. Gosta de Paulo Coelho. Suas leituras indicam um espírito inquieto em busca de verdades e sentidos, senão para encontrar respostas, para, ao menos, aprender a melhor formular perguntas, afinal, uma pergunta bem formulada já é meia resposta.

                Yendis Asor Said escreve a grande obra Diário de um louco, já com trinta e cinco capítulos. Trata-se de uma grande epopéia, inicia-se com a citação de uma estrofe de Camões e narra uma grande saga individual onde são citados personagens de diversas tradições, além de musas e deusas como Is Lila e Samu; musas e deusas são freqüentes na sua literatura.

                Dando forma aos seus escritos, em 2003, o poeta produziu de forma independente alguns fascículos da totalidade do seu trabalho, a saber: 1,7,8, Satãna, A dura ausência, A minha dor!, O despertar e O Castelo. Feitos de forma artesanal pelo próprio autor, os fascículos chegaram a ser bem distribuídos; quinhentos exemplares de cada um.

                Satãna, onde há um diálogo entre o Eu e a deusa Satãna, lembra Macário de Álvares de Azevedo, conhecido poeta brasileiro do século 19. A dura ausência começa pelo final, com o amante a queixar a ausência da amada, tema de interesse permanente da alma humana. Há de se fazer uma leitura mais atenta da literatura de Sidney Rosa Dias, enfocando seus aspectos preponderantes, aqui, fazemos apenas uma modesta apresentação. O Castelo lembra os contos fantásticos de Edgar Allan Poe, escritor conhecido da juventude.

                Seus escritos apresentam uma linguagem envolvente (efeito narcótico ao ler) e sugestiva (literatura simbolista). Indefinição do cenário e dos personagens, insinuação da voz narrativa e do enredo. Cria-se uma atmosfera de meia-luz que nos encanta ao ler. O eu-lírico formula perguntas, e, ao contrário dos livros de auto-ajuda com suas metralhadoras de respostas, deixa o leitor ler/escrever (imaginar) dali para frente. Ele convida o leitor a entrar na floresta de símbolos e a se perder nas águas do poema.

 

II

 

                Em 2007, apareceram novos livrinhos do poeta: Solidão!, Um Mal Bem Conhecido, Yendis, Algo!, além de textos como Suicídio, Sociedade Massacrada I e II, publicados no Jornal Regional Contagem, onde passou a colaborar a partir de abril de 2007, além da participação em Quatro Elementos, reunião poética (2007), obra conjunta com Fernando Januário, Lecy Pereira Sousa e eu, onde afiguram três textos de cada um dos participantes.

                Solidão! atualiza a tônica lúgubre tão presente em outros textos de Yendis, como Satãna, lembrando porém, que Solidão! é feito de substância natural, Satãna, embora carregado de carga emocional (humana), apresenta uma personagem sobrenatural. Solidão!, assim como Dura Ausência (2003), fala da irreparável perda da amada: “Mesa vazia, cadeira vazia...”, assim começa o poema, que termina da seguinte forma: “No quarto um doente, um ente com / um freqüente sonho, e uma solidão, / de alguém que se foi sem perdão. / Uma solidão, tudo isso em uma solidão... / Ó triste e apaixonado coração!”. O poema se desenrola através de um monólogo, tal qual O Corvo, de Poe, que, triste e ensismemado, vai contando a perda da amada, sugerindo, ao longo do poema, o ambiente esvaziado, antes habitado pela presença do casal. Sempre comovente a permanente temática da perda; não há ser humano que não se comova.

                Já Um Mal Bem Conhecido (2007) inaugura ou atualiza, com mais força e inteligência, um poeta com a língua afiada para a sátira e, devido à atualidade histórica do alvo da sátira – o neopentacostalismo – este livrinho, pode-se afirmar com segurança, é um tanto quanto original; e olha que nem estou preocupado em caçar originalidades.

                Um Mal Bem Conhecido, como tudo que é verdadeiramente novo e não meramente arranjadinho para dar impressão de novo, é violentamente virgem: “No meio da multidão / Ele pulava e tirava demônios, / Ele dizia: — É encosto irmão! / Sai do Zé, sai do João e do Tônho. / Esse que parece um santo, / Em nome de Deus berra tanto, / Diz ter força maior que Sansão. / Não passa de um porco fodido, / Não passa de um padre maldito, / De um bispo, pastor e ladrão”. Sem papas na língua, sem autocensura, eis um trabalho de intervenção política, no melhor sentido, porque intervém nas idéias; uma voz dissonante em meio ao pensamento único; uma voz sem compromissos com o politicamente correto; com a vida literária bem comportada das noites de autógrafos; o senso crítico; a sátira; uma alfinetada na alienação, na imbecilidade; eis a voz de um poeta, uma individualidade no exercício de sua liberdade; o que não adere à boiada; o que ri da sociedade, que lhe coloca um espelho na sua frente que reflete uma imagem que ela não suporta. Com Um Mal Bem Conhecido, Yendis Asor Said, sem querer e sem estar preocupado com isso, alinha-se à tradição dos malditos, os Adous Huxley, Jim Morrisom, e, da nossa tradição, os Gregório de Mattos.

                O livrinho Yendis (2007) reúne os textos onde se manifesta o personagem Yendis. Yendis é como se fosse – note-se, como se fosse – o alter-ego do poeta, tal qual os heterônimos de Fernando Pessoa. Que fique claro, Yendis não é nem pode ser a pessoa física Sidney R.D. Que não se faça essa redução errônea. Trata-se de uma entidade, uma personagem. E Yendis é das personagens mais divertidas. Superior, Yendis só se relaciona com deuses, filósofos, seres superiores como ele, e, com esses, mantém uma postura de primazia; chama Cícero de “caro Circe”, Platão vira “meu caro Plata”, Morfeu, deus grego do sono, é o “Mofa”, os apelidos beiram o deboche: São Lucas transforma-se em “Ó Lucas”, etc. Yendis só aparece em lugares exóticos, distintos: Inferno, Roma, Oklahoma, Bangladech, etc. Dá conselho a figuras bíblicas, resolve altas discussões filosóficas com uma frase, tem opinião para tudo, e, detalhe, todas suas opiniões são infalíveis e ele fecha o debate, não deixando margem para uma possível continuação da discussão; fala de forma categórica e responde as grandes questões universais: “De onde viemos?” e “Para onde vamos?”, com naturalidade de criança. De tão resoluto e certo de si, Yendis chega a cativar pela firmeza, pela aparente arrogância, que, olhando bem, é um jeito afirmativo de ser, sem medo de ser feliz, sem muita firula acadêmica, sem muita discussão sem fim. Autoritário? Fascista? Yendis responde seus questionadores que lhe vem especular a vida de forma curta e grossa, desmontando seu oponente, por isso, não é bom brincar com ele. E deixá-lo quieto também não é alternativa. Yendis intromete-se em tudo quanto é discussão, quer dizer, só altas discussões em que estão em pauta as grandes questões da Humanidade, os grandes problemas metafísicos do destino do Homem. Ele intromete-se numa conversa de filósofos, joga a sua resolução e sai andando, não perdendo tempo entre os bem pensantes pedantes. Yendis não tem mais paciência para muita firula: ele chega, resolve, e sai fora. Com Yendis é fim de papo. E lógico, ele sai sempre campeão das situações onde aparece. Apenas em um poema, onde aparece a sua amada Satãna – ela mesma, Satãna; veja o diálogo e a intertextualidade interna da grande obra Diário de um louco, a única a quem Yendis se submete, mesmo assim, não deixando de dar umas espetadas também na amada. De tão divertido, Yendis chega a saltar as páginas, esse intrépido personagem. Sua “arrogância” chega a ser cativante. Entrar no seu mundo mágico de deuses e filósofos é um bálsamo para a nossa alma, esmagada pela vida chã. Continuemos.

                Algo! (2007) foi um "desafio" para o nosso poeta. Procurando uma forma de expressão mais livre, mais livre do que os seus já livres versos rimados, procurando a prosa espontânea tal qual Jack Kerouac, YAS chegou a uma prosa poética de fôlego em Algo!, seu primeiro trabalho com esse formato. O poeta, por assim dizer, soltou a pena e ela voou, e o pensamento voou, numa fluência vertiginosa, beirando a virtuose. Há passagens em Algo! em que dá para notar quando a escrita livra-se do autor que lhe deu o pontapé inicial, e os momentos onde o autor novamente toma as rédeas da selvagem escrita e lhe imprime nova direção, para novamente, ela descambar para onde quer ir; e é nesse movimento que vai sendo tecido Algo!, o próprio nome, “Algo”, já expressa essa vontade de exprimir “algo”, esse “algo” que está contido dentro de todos nós, essas estranhezas humanas (digo eu), e que só a escrita espontânea, é capaz de exprimir. E preciso deixar o verbo pirar, a pena correr, sem a censura da ideologia, a tirania da razão, sem exigências de beletrismo. E é preciso coragem para permitir-se a liberdade criativa, a liberdade de modo geral, e o nosso poeta permitiu-se; a liberdade amedronta, mas o poeta enfrentou o medo, pois, sabia que valeria a pena ir até o fim, e foi, e no final, foi recompensado, tendo em mãos um texto que esbanja vitalidade, um sopro de ar fresco, um texto que nos abre a mente. Para fazer trocadilho: Algo! tem algo de novo, e esse novo não precisou ser atual para ser novo, não precisou falar de tema atual ou se utilizar de forma literária sofisticada, bastou apenas comprar o desafio de seguir o caminho da liberdade, a liberdade que nos convida e que negamos, onde habita os melhores textos. E lá onde YAS foi buscar Algo!, nos porões da consciência, onde recalcamos a liberdade. Em tempos de neoliberalismo, pensamento único, padronização do corpo e da mente, onde a própria esquerda parece repetir as mesmas ladainhas, distingue-se o poeta de Algo!, com seu grito desbragado, entalado na garganta pelo cotidiano massacrante, mas enfim liberto: um grito para assombrar a cidade, fazer os homens, inimigos da liberdade, arrependerem-se de viver sob os grilhões que eles mesmos, com sua sociedade antilibertária, construíram. Com Algo!, YAS, por sua vez, alinha-se à tradição dos textos literários que vasculham a mente humana e dão vazão ao inconsciente recalcado; alinha-se à tradição da literatura subversiva-porque-subjetiva, aliás, literatura aparentemente mais presente fora do que dentro do Brasil (tenho que redescobrir Clarice Lispector e outros), onde sempre fomos afetados do bem pensar, do bom mocismo, às vezes, beirando o moralismo, sempre disfarçado de bom senso, com ares de sublime (inclusive o bom Drummond); basta pensar: cite-se um escritor(a) nacional a la Jack Kerouac? Exatamente os marginalizados do Cânone Nacional: No século XIX, Kilkerry, Sousândrade, Cruz e Sousa (na poesia), Qorpo-Santo (prosa teatral); no século XX, Campos de Carvalho, Rosário Fusco (na prosa) e, perdoem-me os lemiskyanos, será a poesia de Paulo Leminski tão libertária quanto queira ser? Quanto à poesia marginal, também pergunto: não haverá mediocridade por trás do seu minimalismo? De um modo geral, nossa literatura é meio tímida no que se refere à libertação da mente por meio da escrita.

Para quem conhece a poética de Yendis Asor Said, sabe que Algo! também é uma tentativa de ruptura com o seu próprio maneirismo formal (mantendo a passionalidade temática), que busca fazer um rito de passagem, libertando-se da autoridade do pai, das convenções sociais, da educação mofada que lhe foi transmitida, libertar-se das regras do bem pensar e do bem escrever. E, como tudo que emerge, vem às golfadas, com a violência de um parto, como o despertar de um paciente que passou longos anos em estado de coma, vem aos vômitos, é como se os humanos do filme Matriz despertassem das cápsulas onde seus corpos são abduzidos; é como o despertar da caverna de que fala Platão, da caverna da ignorância, acordando para a luz da verdade que só pode ser atingida através do caminho que conduz à libertação da mente. Yendis Asor Said arranca às entranhas esse “algo” que vive adormecido dentro de nós à espera apenas de nossa coragem para se libertar: esse algo é a própria liberdade, é a substância mais genuína do que seja o ‘humano’, não propriamente o ‘humano’ do homem que raciocina (homo sapiens), mas o ‘humano’ do homem que delira (homo ludens).

 

 

(1) O julgamento literário pautado pelo critério da originalidade, herdado do Romantismo e transformado em mola-mestra da crítica literária, romântica e posterior, encontra-se, ao meu ver, impotente, insuficiente, e às vezes, até impertinente, para dar conta do reconhecimento – que dizer do julgamento – dos textos literários contemporâneos: os românticos tinham razão para estarem preocupados com a questão da originalidade, engajados estavam no projeto de Nação; a literatura romântica estava preocupada em afirmar uma Língua Pátria diferente da língua dos colonizadores, preocupada em afirmar uma literatura nacional original, diferente da literatura da Metrópole; a crítica literária desta época, portanto, tinha o critério da originalidade como carimbo: ou o escritor era brasileiro, ou era antiquado, lusitano, mofado; procurar diferenças, especificidades, demarcar fronteiras, afirmar uma individualidade brasileira, distinguir-nos de Portugal, eis as preocupações da crítica literária romântica. Com a Independência e a consolidação da Cultura Nacional, a crítica literária, ao invés de abandonar o critério da originalidade, o mantém, só que, agora, utilizando-o para distinguir um escritor do outro; agora, original é quem ia além da literatura convencional (na prosa, início-meio-fim; na poesia, verso metrificado), o que deu margem para toda uma ânsia de genialidade entre nós. Agora, o escritor/poeta queria ser “diferente”, “original”, “de vanguarda", “novo”; ninguém mais quer fazer literatura convencional, ninguém quer mais escrever uma história com início, meio e fim; ninguém quer mais fazer um soneto despretensioso, bem escrito. A crítica literária posterior ao Romantismo, ao manter o critério da originalidade, talvez tenha contribuído no forjamento dessa ânsia de genialidade, pois ajudou a inculcar na cabeça dos escritores que “bom” é aquele que é “original”. Aí, como dizem os caipiras, danou! Foi um festival de originalidades, cada um querendo ser mais original que o outro... gente querendo reinventar a roda...

                              UMA MENSAGEM DE REDENÇÃO

Sobre "Mico-Leão-Sáurio e a Redenção do Planeta Terra", de José Menezes da Silva

Por Vinícius Fernandes Cardoso

 

 

A rua Rio Mantiqueira, em Contagem, abriga o gênio do Sr. José Menezes da Silva, arquiteto da obra Mico-Leão-Sáurio e a Redenção do Planeta Terra (1998), conto-poema “surrealista”, exatamente porque cheio de gravidade “realista”. A obra de José Menezes permite mais de uma abordagem, devido à riqueza de arquétipos e símbolos nela inscritos. Pretendo apresentar um panorama desta e ressaltar especialmente o seu caráter humanista; humanista sim, pois, ao tratar da questão ecológica, obrigo-me a uma visão holística, obrigo-me a tratar da totalidade das coisas existentes, bem como do estar no mundo[1], da situação da humanidade no planeta azul. A ecologia diz respeito à relação homem/planeta, homem/homem, e, para os crédulos, homem/criador. Em outras palavras, pensar em ecologia corresponde a pensar totalmente e, por extensão, humanisticamente.

A capacidade da narrativa de ir do local ao universal, e vice-versa, e o “Instinto de Nacionalidade”[2] que a atravessa me levaram a constatar um caráter nacional na mesma, igualmente.

Os deuses ostentam um lugar privilegiado na narrativa, são os protagonistas que inspiram a ação humana, dando à obra um caráter de epopéia: o divino, o sublime. 

Imaginação e técnica concorrem para a realização desta obra, que apresenta uma intencionalidade de tratar de nós mesmos (“Sinn Fein”[3]), de nossa condição de seres telúricos, habitantes de um planeta ameaçado, partindo de referências e mitos locais para transmitir uma mensagem de redenção aos homens.

 

A estória e a História

Conforme era seu costume transmilenar, Tupã[4], deus da natureza, resolve testar o potencial da atmosfera terrestre: “Sua máquina do tempo indicava o declinar da primeira metade do século XX, mais precisamente o ano de 1945. (...)”. São feitas referências ao período histórico e ao desfecho da Segunda Guerra Mundial: “O soberano deus das alturas (itálico do livro), que por analogia era também deus do raio ou do trovão, já projetara na rota circular daquele ponteiro a data para desferir seu corisco estratosférico; entrementes, ainda mais se preocupou quando percebeu que lá na superfície ocorriam estranhas explosões, duas das quais[5], detectadas pelos capciosos sensores como provenientes do lado oriental da esfera terrestre, produziram forte intoxicação em suas nuvens, enquanto nos ares voavam exóticas figuras[6], luzidias e tesas, que não eram pássaros...”. O teste de Tupã falha, devido ao estado de fraqueza das massas atmosféricas e ao estado de degradação da camada de ozônio; a “bala espacial”, composta de massa atmosférica condensada, como que sai pela culatra de seu arcabuz astronômico, ou seja, aquela que deveria voar para os confins do universo, é atraída pela “débil força gravitacional da lua”. Engraçada aqui é a aparição zombeteira de Anhangá[7] e outras forças do Mal, a gozar Tupã pelo seu fracasso.

 O deus da Natureza retira-se para refletir. Em seguida, resolve descer ao solo terrestre, o que só fazia milenariamente, ou quando tinha alguma missão especial a cumprir. Tupã constata o estado de danificação do planeta provocado pelo homem; decepcionado e furioso com os rumos tomados pelo mundo humano, resolve destruir a humanidade. A empreitada é reprovada e interrompida pelo “Supremo Senhor do Mundo”. Ao mesmo tempo, Este incumbe Tupã de uma missão especial com o objetivo de alertar a humanidade sobre sua condição de decrepitude, e avisá-la de que a continuidade de sua malventurança poderá lhe custar a sua extinção. Tal missão consistirá no plantio de uma semente que gerará uma árvore, cujo segmento de raiz representará simultaneamente a forma de um símio e de um antigo sáurio, mostrando assim aos homens a tamanha magnificência do criador e da natureza por ele concebida, com o objetivo de lhes fazer refletir e pôr termo em sua sanha devastadora. Esta formação vegetal – ou esta raiz – será encontrada posteriormente por “uma criatura humana do sexo masculino, dotada de privilegiadas qualidades morais e intelectuais conferidas pelo Destino, e também portadora de índole serena e virtuosa”;  criatura esta que será configurada no próprio autor, levado à condição de protagonista da novela.    

 

Da biografia à obra

Trabalho conseqüente, a obra de José Menezes invoca informações autobiográficas que servem de mote à criação de um relato fantástico. Nascido no município de Florestal, Minas Gerais, o adolescente José viu na raiz de uma árvore, arrancada no meio da roça de milho que ele capinava, uma protuberância ou “configuração fito-natural” em forma de besta. O fato, a princípio insignificante, ganha ênfase bem mais tarde sob a pena do adulto José Menezes: “É nesta conjectura que pergunto ao estimado leitor: como escreveria você uma condizente história, se tivesse como ponto de referência uma formidável raiz de árvore, parecida com um indefinido mas expressivo animal da selva, que você tivesse achado de forma tão fortuita quanto pitoresca em seu torrão natal?” Respondo ao autor.

 

O mais difícil: ser simples

Com os sentidos saturados devido a grande quantidade de estímulos (imagem, som, texto) emitidos por emissoras de rádio e televisão, impressos periódicos, outdoors, e outros lixos informativos, encontramo-nos sob o risco de deseducar nossos sentidos e deixar de perceber o mais fácil de perceber: o que está próximo (itálico nosso), ou seja, a nossa própria história de vida, nossos familiares, amigos, vizinhos, nossa aldeia. Veremos que há muito temos deixado de ver as calçadas e as árvores e também porque deixamos de o fazer, as árvores foram cortadas e as calçadas estão cada dia mais impraticáveis. Todavia, graças a seletividade da memória, esta tem nos “protegido” em algum nível dos estímulos padronizados da publicidade reinante. A memória, sendo hierárquica, a partir do conjunto de suas lembranças, seleciona as mais e as menos importantes, as memoráveis e as esquecíveis, estas últimas de fato esquecidas, àquelas outras recriadas passado o tempo. Alerta porém. A memória que pode evitar lembranças sem importância (pessoais etc), uma vez sistematicamente assediada pela indústria cultural, pode começar a esquecer lembranças importantes. E esquecer o importante pode ser o primeiro passo para lembrar o sem importância. Eis a nossa preocupação. Eis o nosso alerta. O supérfluo tornar-se essencial. Observar e não ver. Escutar e não ouvir. Ler e não entender. A deseducação dos sentidos, perpetrada pela indústria cultural, enquanto produtora e emissora de produtos/estímulos padronizados. Vejamos agora a resistência. Já a purificação dos sentidos – quem dera a ponto de chegar a indivíduos a la Walt Whitman – será o prêmio àquele que a conquistar, mediante esforço e disciplina, o que já apregoava o Zen Budismo, mas negando o mundo físico; pensamos num materialismo com moral humana a la Wall Whitman, que, à falta desta moral humana, que Jean Paul Sartre tentou elaborar, levará ao materialismo sem moral a la Marquês de Sade, ou ao retorno religioso, o que assistimos com o crescimento do neo-pentecostalismo. A percepção direta das coisas, sem intermédios, sem transcendência, sem metafísica, sem representação simbólica: o encontro do homem consigo mesmo na sua condição de ser telúrico. A noção justa das coisas será o troféu ao bom vivenciador/observador. Por meio de um árduo exercício de apuração dos sentidos, chega-se ao mais difícil de se alcançar: a simplicidade. Reconciliado ao Simples, o homem agora poderá ver e cantar sua aldeia, poderá passear e admirar os fenômenos pequenos, com os quais a natureza nos presenteia a todo momento; ele poderá então distinguir em meio a raízes a forma de um macaco associado a um lagarto. O olhar que descobriu a magnificente formação vegetal motivadora do livro foi um gesto livre (itálico meu), diferentemente dos gestos automatizados, previsíveis, recorrentes no cotidiano das pessoas das grandes cidades. Falamos isso para ressaltar a beleza da obra, existente apenas porque os “olhos de poeta” do jovem sonhador José olhou e viu aquilo que seria o “Mico-Leão-Sáurio”, personagem central da obra criada pela engenhosidade do mesmo José já homem feito. O encontro do adulto com o menino e com moço[8], realizado pela narrativa, é, na verdade, a grande redenção da obra. A história surge de um fato biográfico que poderia ser ignorado e esquecido, mas que, elaborado e edificado, criou uma saga de caráter mítico e profético.  

 

 

Saudação inicial

Entusiástica a saudação do poeta Giuseppe da Costa[9] à fantástica história do Mico-Leão-Sáurio, cujas palavras sinalizam entendimento. Tal saudação, como o restante do livro, vale-se dos recursos eletrônicos do editor de texto e utiliza-os de forma “exagerada” e este “exagero” toma de alguma forma uma função alegórica, com o objetivo de dar um caráter épico à obra. Também a recorrência de maiúsculas alegorizantes, as expressões pomposas conferindo grandeza às personagens e situações, são mostras de uma intencionalidade tácita de conferir à história um ar de epopéia. Mico-Leão-Sáurio e a Redenção do Planeta Terra, o livro, trata-se de uma epopéia moderna mais por causa do texto em si, menos pelos recursos gráficos que, inclusive, poderiam ser dispensados, sob a acusação de mau gosto. Epopéia sim, mas não nos moldes do classicismo, e sim uma epopéia dos nossos tempos, ao estilo de um Macunaíma de Mário de Andrade. Nosso herói é apenas um jovem camponês de um pequeno município da provinciana Minas Gerais, cuja ação é conduzida pelos desígnios divinos. A saudação de Giuseppe da Costa abre-se com um caloroso “Um amigo em raia paralela...” e traz expressões como “estilista visionário”. Bela mostra de camaradagem.  

 

A crença na redenção universal

Presente em escrituras sagradas, bem como em narrativas orais de religiões ágrafas, o mito da destruição do mundo é uma constante no pensamento religioso, possibilidade pela qual o criador, decepcionado com a civilização humana, permite a destruição universal por forças da natureza, garantindo, após a hecatombe, a regeneração do mundo natural e mesmo a regeneração humana, entregando aos sobreviventes um mundo novo. O mito da destruição/regeneração  universal apresenta variações de acordo com o povo, sua cultura e sua crença, mas basicamente repete a seqüência descrita acima, conforme nos garante Mircea Eliade: “Evidentemente, esse Fim do Mundo não foi radical: foi antes o Fim de uma humanidade, a que se seguiu o aparecimento de uma nova humanidade. (...)”[10]. No livro de José Menezes, o mito do cataclismo universal reaparece, desta vez sob a tutela do deus Tupã. Ao constatar a redução drástica das reservas de água doce do planeta, o desmatamento, o rompimento da camada de ozônio, a poluição geral, decepcionado e indignado, o deus da chuva e do trovão decide em foro íntimo aniquilar a civilização humana, responsável pelo estado de degradação de toda a biosfera. Para efetuar a destruição, Tupã  recorre às águas com o objetivo de provocar um grande dilúvio: “Em grande número de mitos, o Dilúvio está relacionado a uma falha ritual, que provocou a cólera do Ente Supremo; algumas vezes, resulta simplesmente da vontade de um Ente divino de acabar com a humanidade. Mas, ao examinar  os mitos que anunciam o Dilúvio próximo, constatamos que uma das causas principais reside nos pecados dos homens, assim como na decrepitude do Mundo.”[11]

Além do mais, sendo morador e transeunte de uma cidade que já foi uma das mais arborizadas no estado de Minas Gerais - cujo brasão afigura a imagem de uma árvore, simbolizando a presença da indústria ao lado do verde, José Menezes assistiu , assim como também todos nós, à devastação anônima e impune do verde de Contagem (Região Metropolitana de Belo Horizonte), devastação esta realizada aos poucos pelos próprios cidadãos e “jardineiros” da Prefeitura e da CEMIG. O resultado não podia ser outro: hoje a cidade, assim como todo o seu entorno, apresenta uma atmosfera árida e uma paisagem cinzenta: “(...) Contagem evidencia melhor o fim da História sendo cinzenta, suja, árida, desoladora, inóspita.”[12] 

       A presença da redenção universal na obra, entretanto, encontra-se de forma irônica e não deixa de ser uma alfinetada não só na tradição cristã, mas em todas as tradições religiosas, que, cegas nos seus dogmas, ao invés de praticarem o amor, a eqüidade, a benevolência, etc, preferem praticar aleatoriamente seus cultos e ritos, enquanto lá fora o mundo se deteriora.

 

 

Mico-leão e Tupã: mais do que símbolos

O mico-leão, engraçadamente também “sáurio”, e Tupã, longe de meros ícones estereotipados, exercem protagonismo na epopéia que ora comentamos, a ponto de envolver o leitor na estória contada, o qual pode, inclusive, chegar a torcer pelos personagens, que juntos, como heróis, lutam pela salvação do planeta. Diferentemente do que sobrou de distorcido das atuais religiões dominantes, onde a figura de Deus exerce a função de juiz implacável, ao qual devemos nos dirigir com temor e seriedade, os seres naturais-divinos na obra de José Menezes são próximos dos homens, lutam com eles lado a lado por um mundo melhor, assim como nas narrativas da chamada Mitologia Grega. Mico-leão e Tupã, mais do que “símbolos nacionais”, no conto-poema ou na epopéia de nosso autor, mesmo elevados a condição de interventores da vontade divina, apresentam características humanas, naturais, engraçadas, mostrando o jeito leve como o ficcionista encara a religiosidade, algo diferente da cultura séria, e mesmo, de conteúdo oposto aos fundamentalismos muçulmano (Laden) e cristão (Bush), que dividem o mundo de hoje em zonas de tirania. Deuses e homens são postos lado a lado, tal qual companheiros.  

 

Influências literárias

A obra do Sr. Menezes, caso tivesse sido escrita em verso, poderia ter originado um poema com a mesma inocência, o mesmo cheiro de terra e mato verde de um Juca Mulato, de Menotti Del Pichia, obra referencial para o autor de Mico-Leão-Sáurio, como ele mesmo confirmou. O Sr. Menezes ainda fala da influência de Affonso Arinos, de quem admira a coletânea de contos Pelo Sertão, cujo poema em prosa “Buriti Perdido” é de um primor inimitável, e cuja temática fala dos primórdios mais atávicos do Homem enquanto ser telúrico, algo que vamos novamente encontrar em Mico-Leão-Sáurio. A busca por uma linguagem não-prolixa é uma constante na obra, embora, ao ver de alguns e como já dissemos, a excessiva quantidade de adjetivos e maiúsculas alegorizantes possa prejudicar a fluência, com o que não concordo. Ao meu ver, os adjetivos, as maiúsculas e a utilização de recursos gráficos diversos desempenham (deliberadamente?) uma função explicitante que dá divertimento ao texto. É um estilo do autor? É uma forma de chamar a atenção do desatento leitor brasileiro?

Como articulista do jornal Meio Ambiente[13], José Menezes, incumbido de escrever artigos tendo por base quadros ou fotografias de paisagens naturais, teceu prosas poéticas descritivas e simultaneamente líricas, unindo informação e “literariedade”, evidenciando assim, a busca permanente de equilíbrio entre realidade e fantasia.

Lendo sua prosa uma vez mais, percebi ainda um quê da “pena da galhofa e a tinta da melancolia” de Machado de Assis, influência que o nosso enfocado confirma; certa feita ele me disse da sua admiração por Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, não sabendo qual é a melhor das duas obras machadianas.

 

Dimensão geológica e dimensão transcendental

   A ciência interessada no estudo da constituição, formação e biografia do planeta, é a geologia. A obra aqui comentada faz várias referências ao conhecimento geológico. A Terra, dirá a obra, não pertence ao homem em especial, mas à Vida. O homem surgiu há muito pouco tempo em relação ao surgimento da vida na Terra (se a história do planeta fosse igual à duração de uma partida de futebol, o homem teria surgido apenas no último minuto de jogo). Que dizer do sistema capitalista, com seus duzentos anos? Há, porém, em José Menezes, um casamento do conhecimento científico com a providência divina, o primeiro proveniente desta. Tudo em Mico-Leão-Sáurio e a Redenção do Planeta Terra provém da vontade divina. O livro inteiro é uma epopéia inspirada por forças superiores, um elogio ao sublime. Os marxistas, poderão apontar o Sr. Menezes como místico. Já os evangélicos como falso Messias. Mas, na verdade, trata-se de entender o livro como uma grande metáfora. 

 

O tempo, sempre o tempo

Longe de se considerar um Messias, humilde é o autor de Mico-Leão-Sáurio. Ao mesmo tempo, a redenção de José Menezes não deixa de ser uma redenção de tendência galhofeira, irônica, e tal redenção redime, talvez, apenas, o próprio Menezes; a obra, também um meio de reconciliar passado e presente, e assim, “superar” o passar do tempo e a morte. A história, no entanto, não pode ser acusada de individualista ou personalista, é eminentemente altruísta e social. Futurista, ela antecipa algo cada dia mais presente: a exaustão do planeta frente ao modo de produção capitalista. E a superação desta situação? A resposta não está colocada na obra, ela não se propõe a dar respostas, antes, faz uma provocação, um convite à reflexão filosófica, um convite ao auto-conhecimento, ao reencontro com o Outro, ao reencontro com o Mundo; o reencontro entre Homem e Natureza, Homem e Homem. Se isso é sonhar, que sonho mais justo e possível! Pois que  “irreal”, “fantasioso”, “pesadelo”, não é o que vivemos?

O epílogo, parte derradeira do livro, é onde Menezes, por assim dizer, nivela por cima, sobrevoa. Parte bonita, é quando o narrador permite-se Deus – e o que é Deus senão nós? –, e levanta seu vôo cósmico, através da sua Máquina do Tempo (último capítulo ou pos scritum), avistando as épocas, os homens, as coisas, os fatos e acontecimentos, numa guinada altaneira – a esta altura da narrativa o tempo é colocado numa dimensão relativista, como descobriu Albert Einstein – tal qual a da coruja de Minerva[14].

 



 

[1] Expressão/conceito de Jean-Paul Sartre.

[2] Vide Instinto de Nacionalidade, de Machado de Assis.

[3] “Nós Mesmos”, movimento pela independência da Irlanda havido no início do século XX.

[4] Deus do trovão, por extensão, da natureza, para os tupi-guarani. Dicionário Aurélio: Designação tupi do trovão. Nome pelos quais missionários e jesuítas designavam Deus.

[5] Bombas atômicas jogadas sobre Hiroshima e Nagazaki ao término da Segunda Guerra Mundial pelos EUA.

[6] Aviões de guerra; bombardeiros.

[7] Figura mítica entre os tupi-guarani; deus do Mal.

[8] “O menino é o pai do homem”, Sigmund Freud.

[9] Poeta, prosador, autor de Evemia Venida (1991). Mora no Colorado, em Contagem.

[10] Cf. Mircea Eliade In Mito e realidade. Editora Perspectiva, São Paulo, 1972.

[11] Idem.

[12] Citação do poema A alma dos bairros (2004), de Vinícius Fernandes Cardoso.

 

[13] Jornal editado pela Sociedade Ornitológica Mineira-SOM., de Belo Horizonte

[14] A Filosofia.

ROBERTO ALVES ISCHABER, Um boêmio poeta noite adentro

 Por Vinícius Fernandes Cardoso

 

 

Rua Rio Ganges, 287, bairro Novo Riacho, Contagemtown. Eis o endereço do boêmio poeta, de fisionomia singular, parecida com a do ator e diretor norte-americano Woddy Allen; eis Roberto Alves Ischaber, contabilista, nascido a 3 de fevereiro de 1961. Antes de tudo, poeta, movido a álcool;  cronista da noite, prosador poético, autor do interessante texto “A reportagem não-publicada”, onde descreve a raça homos sapiens literatus, da qual é espécie.

De volta para casa, do escritório donde trabalha no centro de BH, Roberto tem o hábito de parar no ponto do ônibus 1189 (Monte Castelo/BH) perto da esquina da rua Rio Tibre com Solimões, bar do falecido Salvador, hoje Bar Capelinha. É lá onde escreve grande parte dos seus textos. Sua motivação: o sentimento poético e religioso, e a mãe, “sua grande musa”, diz. Até hoje, deve publicação em livro de seus poemas, escritos em cadernos, rascunhos e à máquina de escrever, fiel companheira.

Leituras? Leu muito. Ostenta com orgulho a obra completa de Edgar Allan Poe, uma de suas referências literárias. Dos brasileiros, venera Machado de Assis, Castro Alves, Adélia Prado, Jorge Amado e Graciliano Ramos, como respondeu ao questionário da Academia Contagense de Letras, da qual foi membro, desligando-se desta após uma contenda, juntamente com Eli Ferreira de Noronha Júnior, poeta, presidente da extinta Associação dos Artistas de Contagem (AAC), da qual foi contabilista e intenso colaborador, a ponto de ser homenageado quando da inauguração da gibiteca “Roberto Alves Ischaber”, seção da Biblioteca Comunitária Lindalva de Freitas Ribeiro, da AAC.

Roberto escreve diariamente. O cinema, depois da literatura, é sua grande paixão. Ao descrever a própria personalidade, escreveu: “Sou uma pessoa alegre, comunicativa, mas que às vezes fica chateada com os acontecimentos do mundo, gosto, amo a literatura, sendo um leitor constante, gosto de animais, plantas e de jogar uma boa conversa fora”.

A partir de 2002 aproximadamente, Roberto, próximo a Eli Ferreira de Noronha Júnior, presidente da Associação dos Artistas de Contagem (AAC), foi convidado por este último a contabilizar para a Associação. Aceito o convite, Roberto exerceu a função até a extinção da AAC, no final de 2003, início de 2004. Foi homenageado pela Associação, quando da inauguração, dentro da Biblioteca Comunitária Lindalva de Freitas Ribeiro, da AAC, da Gibiteca Roberto Alves Ischaber, por seu gosto pelos quadrinhos e literatura infanto-juvenil, por ter sido o maior doador de livros da biblioteca, pelo jeito menino e por seu amor às crianças.   

Os poemas de Roberto Alves Ischaber lembram a ‘ingenuidade’ dos poemas Cora Coralina. Roberto, apesar de escritor boêmio, dado a bebida, ao cigarro e há tudo que a noite contém, não escreve sobre boemias. Roberto escreve sobre coisas “bonitas”:

 

Menino a brincar

 

Um menino a brincar cativou-me

em seu velocípede, rápido como raio

corria, em teu rosto um sorriso

O menino fez-me voltar ao tempo de criança

E o menino que eu fui, chorou!

Porque não posso mais brincar num velocípede.

 

E ainda:

 

Sou poeta

 

Sou poeta, quero escrever

os anseios da alma humana

Sou poeta, quero analisar

todos os segredos não revelados

Sou poeta quero a liberdade

de ser-pensar livremente

Sou poeta, quero revelar-me

Sou capaz de amar e ser amado.

 

O boêmio Roberto Alves Ischaber poderia ter sido um João Antônio (escritor brasileiro), se não fosse o lirismo e o sentimento religioso, ou um Charles Bukovsky (norte-americano), se não fosse a timidez e o trauma com mulheres: “O amor é um côcô”, diz o poeta. Dito bem: poeta. Roberto não é cronista como João Antônio, nem contista com Bukovsky. Roberto é poeta, principalmente. Apesar de todos os citados serem escritores boêmios, têm lá suas diferenças, e que diferenças. Uma vez testemunhei Roberto se aventurar pela prosa, com “A reportagem não-publicada”, que, diga-se, ficou boa prosa: divertida, esperta, descolada. Tratar-se-ia de Roberto explorar mais a prosa? Aliás, não só ele, mas muitos poetas que conheço, talvez poderiam se redescobrir se aventurando pela prosa; escrevendo crônicas, contos, prosas poéticas.

Eis a caricatura do caricato Roberto Alves Ischaber, “poeta-boêmio-mor de Contagem”, ou “Woddy Allen de Contagem”, “títulos” conferidos por mim que chegaram a pegar por um tempo, como se podia ler em exemplares do “Paralê-lo”, periódico literário da Academia Contagense de Letras. Por fim, deixo para o leitor com um dos textos mais cativantes de Roberto, “A reportagem não-publicada”, lido durante o Sarau “O tempo não pára”, e que causou impressão no público:

 

A REPORTAGEM NÃO-PUBLICADA

Roberto Alves Ischaber

 

 

H

á poucos meses atrás, pessoas de variadas idéias começaram a se reunir aos sábados no Mercado Municipal deste município, primeiro sem muito alarde, depois com barulho ensurdecedor. Estas fundaram a Academia Contagense de Letras. Mas o que vem a ser a Academia Contagense de Letras? Pessoas de fora do movimento achavam se tratar de algum culto esotérico, outros de uma seita de malucos ou de nova igreja evangélica ou agremiação política, alguns até acharam tratar-se de uma academia de ginástica.

         Descobrimos o mistério: a ACL é uma reunião de HOMO SAPIENS LITERATUS, mas o que vem a ser este nome difícil de pronunciar?! Através de incessantes pesquisas chegamos a conclusão que o HOMO SAPIENS LITERATUS é conhecido como Escritor, poeta, amante da literatura e dos livros. Mas como conhecer o HOMO SAPIENS LITERATUS?! Isto é fácil, é somente seguir estas dicas:

 

01) Se seu filho ou filha se tranca no quarto com livros e mais livros, isto é um sinal;

02) Se seu filho adora ir a escola, principalmente fica muito tempo na biblioteca, pode começar a ficar preocupada;

03) Se ele ou ela gosta de se sentar e começa a escrever, pode ter certeza, ele é um escritor;

04) Se ele ou ela compra cadernos mais do que o necessário para os seus estudos, comece a desconfiar;

05) Se seu filho, ao dormir, levar um livro ou caderno para a cama, também é outro sinal;

06) Se seu filho gasta o salário dele ou quase todo em livros, arranque seus cabelos, chore, grite: ele é um escritor!

 

Conhecemos um HOMO SAPIENS LITERATUS, melhor dizendo, um escritor que gastou seu primeiro salário em livros. Chegando em casa, sua mãe perguntou: — Filho, e o seu salário? — Ele pegou uns dez livros, começou a beijá-los, dizendo amá-los e falou para sua mãe: — Aqui está o meu salário!

         O HOMO SAPIENS LITERATUS se alimenta de quase tudo, devora principalmente livros, na falta deles, devora lista telefônica, dicionários científicos, bula de remédio, qualquer papel impresso.

      Com nossas pesquisas descobrimos que o HOMO SAPIENS LITERATUS cultua, ama, venera certas pessoas, descobrimos algumas delas:

         Adélia Prado, descobrimos tratar-se de uma gatona linda que mora em Divinópolis.

         Emilé Bronté, fizemos pesquisas e mais pesquisas, temos certeza que ela não mora em Contagem.

         Pablo Neruda, descobrimos que tinha um amigo carteiro, mas era meio louco, fez sonetos para o amor, sentimento tão dolorido!

         Castro Alves, poeta condor, não com dor física, AI, AI, UI, AI, mas poeta que voou nas asas da liberdade como o pássaro Condor.

         Guimarães Rosa também é muito citado, porque o sertão foi sua matéria-prima.

         Saramago e seus livros difíceis de entender, mas é Nobel de Literatura.

         Existem muitos outros, mas vou ficar somente nestes.

         Descobrimos também que o HOMO SAPIENS LITERATUS tem os seus livros como um tesouro. Quer ver um chorar? Fale que vai rasgar ou queimar seus livros. Ele chorará, vai fazer pirraça, esperneará como uma criança, vai lhe pedir até pelo amor de Deus para você não fazer isso.

         Nossos informantes descobriram que as reuniões foram transferidas para um local chamado Casa da Cultura.

         Estou escrevendo esta reportagem e tenho uma revelação a fazer para vocês:

         Sou Roberto, 41 anos, mas tenho duas identidades, sim, porque todo mundo pensa que eu sou contabilista (é apenas um disfarce), mas na realidade sou também um HOMO SAPIENS LITERATUS, sim, amo os livros, adoro, tenho prazer em escrever. Minha vida é até um livro cômico, vou contar para vocês alguns textos desse livro.

         Quando menino, trancava-me no quarto com meus livros, minha mãe sempre dizia: — Filho, o que você está fazendo? Eu nada respondia.

         Gastei meu primeiro salário comprando livros, foi a compra mais gostosa da minha vida!

         Quando minha mãe descobriu meu segredo, teve um piti, começou a passar mal e entre lágrimas, reclamava: “Tudo meu Deus, menos meu filho poeta ou escritor! Resultado: parei num psiquiatra! O doutor examinou-me, dando o resultado a minha mãe: — Dona, não há cura, amor pelos livros e literatura não se cura, tem que aceitar! Hoje minha mãe é minha incentivadora número 1.

         Escrevi esta reportagem porque tenho orgulho, meu coração fica enorme:

         — Sou um HOMO SAPIENS LITERATUS!

    impressões gerais de "Desencontros grafados"                      sobre o romance-trilogia de leonardo de magalhaens

 

Esperamos com paciência mas com expectativa o  resultado dos incessantes rabiscos de Leonardo de Magalhaens ao longo do segundo qüinqüênio dos anos 2000, que saberíamos que dariam num trabalho que poderia atualizar a tradição dos romances geracionais, a exemplo de Beira-Mar, de Pedro Nava, ou Encontro Marcado, de Fernando Sabino, para citar dois romances do gênero frescos na memória. Sabíamos também que o autor tentaria condensar o audaloso rio de anotações que colecionou e que pudemos – eu e outros – testemunhar a escrita na mesa de bares, meio-fios e outros ambientes, condensação que não aconteceu plenamente, pois, Desencontros Grafados é quase a matéria bruta de todo o empreendimento, sofrendo apenas algumas cirurgias redutoras e evidentemente a revisão.

O romance é formado por partes relativamente autônomas, sendo a Parte I Náuseas de Estudante, a Parte II Insônia das Almas, e, fechando a trilogia, a Parte III Flores no Asfalto. Cada parte como que expressa uma “temporada” (biográfica/interna)[1] da voz narrativa e um “biênio” (histórico/externo)[2], lembrando um típico ro­mance de formação a exemplo de um Retrato de um artista quando jovem[3]; uma narrativa que leva e é levada por uma voz narrativa em processo de amadurecimento (puberdade), de descoberta, de tentativa-e-erro; trata-se de um desenrolar de vivências ao qual vamos sendo conduzidos pela voz narrativa imersa em situações de incessantes reflexões intelectuais, diálogos, interações, todas passadas em cenário urbano: o romance-trilogia é praticamente passado em ambiente urbano/metropolitano. Tudo leva a crer que assistimos ao processo de formação de uma voz narrativa (humana) em seus encontros e desencontros, em seus acertos e erros, em seus prazeres e desprazeres, em suas aventuras e experimentações. Experimentação: nossa voz narrativa, uma experimentalista, uma empirista, vai explorando o mundo ao seu redor e interagindo com os seres a sua volta, a base da técnica de tentativa-e-erro, buscando – se mister for – um entendimento mútuo. Tal experimentação, todavia, convive com uma constante refletividade, uma constante especulação intelectual pura: empirismo e racionalismo são presentes nessa voz narrativa sedenta por conhecimento, por descobrir o mistério das cousas.

Quando Leonardo de Magalhaens foi disponibilizando em capítulos, ao longo de 2008, o seu grande trabalho, a impressão geral (dizemos impressão porque não lemos todo o material), foi que neste impera sobre­maneira um fluxo narrativo vertiginoso, ficando o leitor a procurar sofregamente pistas sobre a personalidade dos personagens, descrição física dos cenários e mesmo um fio condutor (“enredo”). Os personagens ficam como que impalpáveis. Embora suposição não sirva para nada, suponho, ou melhor, suspeito que a carência de pistas sobre os personagens seja em parte explicada por uma atitude consciente de preservação da identidade do autor (provavelmente “HD”, nome muito bem bolado, espécie de memorioso[2] narrador, co-narrador e personagem-referência) e dos personagens, inspirados em pessoas vivas e próximas do autor; em parte, talvez, devido a desatenção que levou a descrição a ficar em segundo plano na narrativa de um escritor advindo do domínio da poesia, onde chegou a alcançar um estilo e voz próprios, além de adquirir habilidade no trato do poema em prosa ou poesia prosaica. Ao contrário das intenções do autor, que quer se dedicar mais a prosa daqui para frente, ele ainda tem pulsão para realizar mais trabalhos de poesia prosaica. Bom lembrar que foi dentro deste gênero literário onde Leonardo de Magalhaens realizou aquela que continua sendo, a meu ver, a sua melhor obra, Ode Sensacional, pois, apesar da importância documental dos Desencontros Grafados, esta não nos cativa como aquela. Magalhaens dominou a fluidez da poesia em prosa e longa (e devia aproveitar isso para produzir mais trabalhos nesse gênero, ao invés de negá-lo precipitadamente), mas, por se apressar à prosa, chegou a ela em Desencontros Grafados imperfeitamente, não apresentando um cansado completo pela poesia. Magalhaens pode ter se cansado da poesia dos outros, mas não se cansou da sua poesia prosaica longa. Finalmente, a rarefeita descrição dos personagens e cenários no romance também pode, em parte, ser entendida como uma preferência existencial e estética do autor de transfigurar-para-ampliar-a-significação, ao modo “simbolista” ou até “expressio­nista”. Dito isso, é bom registrar que Magalhaens tinha consciência de sua empreitada desde o início, tinha para si que não estava ‘contando uma história’ como na prosa ficcional, mas sim um registro de vivências (evidentemente transfiguradas), leituras, memórias, sem exigências romanescas e epopéicas de enredo e conteúdo.  

Há também a hipótese que a indefinição dos cenários seja explicada por uma atitude consciente do autor de impossibilitar a localização/regionalização do romance, seja para transfigurar ao modo simbolista, seja por desgosto do escritor pela sua terra, ou até por uma estratégia (que seria ingênua) de, por negação do local, chegar ao universal, hipótese pouco provável, até mesmo porque Magalhaens conhece muito bem o ensinamento de Tostói: “Se quer ser universal, canta a tua aldeia”. Pelo menos, Magalhaens nos poupa de uma mera citação de nomes de lugares, estratégia artificial de localizar uma narrativa, mas que, para iniciantes na prosa com tendência à abstração, já pode ser um começo para colocar os pés no chão.

O desfigurante fluxo narrativo do romance de Magalhaens quebrou uma expectativa específica de que teríamos ali um romance geracional sobre a geração pós-industrial dos anos 2000, apesar disso, continuamos empolgados com o documento, que embora, como já declarou o autor, “não pretende falar de/sobre nada”, acaba falando sobre parte de uma geração de classe média decadente (“castrada”) de uma época pós-industrial na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Sem querer ser nada nem falar de nada, Desen­contros Grafados não deixar de ser um inventário transfigurado e filosofado – devido à presença constante de erudição e raciocínios elaborados do narrador-intelectual – de tudo e de nada. 

Como entende o autor não se tratar de um livro de divulgação uma vez que ele foi “publicado” mais para o autor se livrar do livro do que para publicar propriamente (dar aos leitores), o mesmo não foi publicado em maior escala, pois, entenda-se, Desencontros Grafados é o resultado de um processo catártico com objetivos

sanitários, é o resultado de um exercício pessoal de vazão de pulsão: uma espécie de limpeza estomacal ou retirada de tumor, o que abre caminho para, daqui para frente, Leonardo de Magalhaens, livre de um fardo, escrever mais tranquilamente. Aliás, o autor cogitou a possibilidade de simplesmente não publicar o trabalho uma vez que sua função catártica foi cumprida, o que nos faz pensar que, a publicação também não deixa de ser uma “prestação de contas” do autor com o seu círculo de eleitos, que sabiam da escrita do trabalho e que esperavam por sua conclusão, para leitura. Em se tratando de leitura e leitores, tenho sugestões para o autor...

Se a hipótese de que o livro não foi feito para a ampla divulgação em parte por motivo de preservação de identidade do narrador-protagonista e dos personagens, lembro ao autor que não há tanto o que temer, pri­meiro porque a medida que a pessoa se transfigura em personagem esta ganha uma autonomia ficcional; se­gundo porque os personagens não são inspirados em pessoas famosas e que não terão grande dificuldade de andar na rua com a maior divulgação do livro; terceiro porque o próprio fluxo narrativo vertiginoso desfigura os personagens, como argumentado, e por isso não permite que se associe personagem com  a pessoa que inspirou a personagem. Dito isso, sugiro o inverso, ou seja, que até se crie um glossário identificador de personagens, não os associando às pessoas reais, mas dando referências ao leitor sobre aquele personagem: em que parte do texto aparece, como se veste, como se porta, como se comunica, suas características físicas e comportamentais, onde mora e o que faz. Da mesma forma, sugiro ao autor colocar, quem sabe, notas de pé de página, glossários explicativos e demais acessórios, enfim, todo que possa ajudar o leitor a se localizar dentro de Desencontros Grafados, não mastigando o texto para o leitor, mas dando algumas referências e pistas, pois, como alegaram alguns candidatos à leitura, o documento está um pouco confuso. Tais acessórios poderão – se implantados – dar coragem aos leitores no desbravamento das mais de mil páginas da trilogia, sinalizando o trajeto, sugestão que nada implica na modificação do texto-base, que será deixado como está, mas apenas acrescentará satélites para os cosmonautas que vierem a desbravar a constelação de Magalhaens[3].



 

[1] O autor iluminou essas temporadas biográficas em Os bastidores, a “história” do romance (seriado) Desencontros Grafados, texto enviado para a sua mala-direta de endereços eletrônicos e disponível no final deste ensaio.

[2] Lembrando Funes, o memorioso personagem de Jorge Luis Borges. “HD” evidentemente vem de Hardware Disk, o Disco Rígido, o compartimento do Computador que armazena (memoriza) todos os dados.

[3] Trocadilho com a Constelação de Magalhães, relativamente próxima da Via Láctea.

 

 

DESENCONTROS GRAFADOS

Plano do Romance (2006-2008)*

 

Parte 1 – Náuseas de Estudante

Época: 1997 a 2001 (+ as memórias)

A visão masculina, a literatura, o dia, o coletivo, a política, a fisiologia...

 

Parte 2 – Insônia das Almas

Época: 1999 (+ memórias)

A visão feminina, a música, a noite, o indivíduo, a religião, a metafísica...

 

Parte 3 – Flores no Asfalto (em 4 volumes)

Época: 2003 a 2006 (+ memórias)

O dia X a noite, coletivo X indivíduo, sexo X amor, ação X meditação....

 

E mais: as versões reescritas (e alternativas) do enredo dos cap. 4 e 6 da Parte 3 (com diferentes perspectivas) (podem ser lidos independentemente), Résumé 1 – Solidão a dois (em 1ª. pessoa) e Résumé 2 – Beijos no Asfalto (em 3ª. pessoa)

(*NOTA DO AUTOR)

                                      AS PUPILAS DE ADÃO *

Por Lecy Pereira Sousa

 

Notória é minha falta de habilidade para o exercício crítico da poesia, também desconheço haver em mim técnica rígida para a criação poética, à maneira clássica conforme os ditames da “escuela”.

 

Mesmo assim, JOSÉ ADÃO insistiu para que eu opinasse sobre esse seu primeiro livro de poemas intitulado “Meninos olhos d’água fogo de Deus”. Paradoxo estabelecido.

 

Valei-me Antônio Candido! Bem se vê que minha função táctil não é a de reprimir talentos, nem a de exaltá-los, que faça isso os bons leitores.

 

Ao sairmos para garimpar nesse livro, eis que deparamos com as pupilas de José Adão. Assim encontramos o poema Lema, carimbo, “O Lema”. Assuntamos, “A Orla da Viola”sentimos a dureza sutil de “Asas Brumadas”, fazendo uma via sacra de uma profissão de fé.

 

Que a vida é um tablado sobre o qual vivemos entrando e saindo de scena (não se trata de um erro, eu quero dizer scena mesmo), bem nos dizem os dramaturgos das palavras. Adão expõe no scenário das letras (primeiras e românticas), sua veia artística. O homem artista do dia a dia, da hora do rush, do ônibus coletivo, do papel ofício, uma oração nas horas operárias.

 

O homem querendo trilhar o pedregoso saboroso caminho das letras poemadas. A intensa sensação de atravessar ruas de palavras.

 

Que os olhos do leitor consigam enxergar as pupilas de “Meninos olhos d’água fogo de Deus”.

 

O LEMA

João Adão R. Abadia

 

Que todos sejam

contagenses não só na

Região Metropolitana

de Belo Horizonte.

 

Per Populum Omnis

Potesta a Deo.

 

Mas sim, claro,

em toda Minas Gerais,

em todo o Brasil e

no mundo.

 

Contagenses, contagiados

pela mudança,

pela Contagem do progresso,

com muita paz e amor

principalmente igualdade,

justiça social

 

Contagense!

Per Populum

Omnis Potesta a Deo.

 

Presto-te seresta,

por mim às avessas,

Omnis per a Deo populum Potesta.

 

Regrando, a entendo!

 

(Todo poder vem de Deus pelo povo)

 

* Prefácio do livro "Meninos olhos d'água fogo de Deus" (2008), do jovem poeta estreante José Adão R. Abadia.

        sobre os poemas de Diovvani Mendonça

Divulgados em blogs, zines, pacote de pão e no blog "Poeminhas para distrair dor de dente" *   

 

Por Leonardo de Magalhaens

 

 

Diante da necessidade de poemar infindamente os poetas precisam de um suporte espiritual ou material, virtual ou em celulose para os seus registros de versos que não podem ficar apenas dispersos ao vento. Ainda que os melhores versos realmente sejam levados pela brisa noturna meio ao resmungar solitário entre andanças e angustias, não podemos privar os leitores de conhecerem ao menos alguns versos, não que sejam os menos, ou até os piores.  Divulgar é uma arte tão sutil quanto rascunhar, rabiscar, esboçar versos e versinhos, poemas e poeminhas num papel ou no monitor do PC, no  aconchego do lar ou no tumulto de lan house, o importante é registro o  mínimo da produção poética. Aquele poema que surgiu e sumiu no sonho ou pesadelo, aquele que foi declamado ao pé de uma árvore paradisíaca ou na parada de ônibus, poemas mil que se perderam.  Divulgar é uma perenização de 1% que a produção ousou, a imaginação conquistou, o papel ou monitor absorveu. Poucos vão tomar conhecimento, poucos vão abrir o e-mail, poucos vão ler realmente. Mas o poeta não pode desanimar. Se os versos não são os melhores - e sim aqueles que foram mentalizados no banho quente da manhã ou no momento orgástico do amor - não vamos privar os seletos leitores de uma amostra grátis do que poderíamos ter escrito.  Insights, intuições, psicografias, os nomes são inúmeros para retratar os momentos de iluminação que rasgam o cotidiano do/a poeta quando ele/ela  produz os versos que alguns nunca vão ler mas outros nunca vão esquecer.  "Uma flor nasceu na rua!" - em que momento da pacata vida de Drummond ele pensou esse verso tão simples e tão extraordinário! Uma flor em pleno asfalto! Uma beleza em plena fuligem! E se ele não divulgasse? Seríamos hoje muito mais pobres de espírito (e percepção!) Assim a divulgação múltipla da poesia é plenamente necessária e aplaudida.  Seja em papel, em xérox, mimeografo, pacote de pão, blogs, dentro do metrô, dentro do ônibus, tipo, você entra num metrô e eis um poema, você embarca  num ônibus e eis um poema, ali, balançando, bolinando entre as suas pernas,  vai comprar um pão e - opa! - um poema! O poema derramado pra todo lugar, de repente, nunca esperado, solicitando atenção - um minuto de vossa atenção!  um minutinho só!  Necessária e merecedora de aplauso às iniciativas do poeta e agitador cultural Diovvani Mendonça - mais encontrável no blog www.diovmendonca.blogspot.com,  mas circulando por aí em pacotes de pão, garrafas plásticas, edições em  cartaz do Mulheres Emergentes, ministrando aulas de poesia nas escolas  particulares e da rede pública, dormitando sob uma arvore carregada de  frutos-poemas.  O poeta que distribui seus pequenos poemas (e há também os extensos)  nas mil mídias citadas além de distribuir garrafas pet com versos - aqueles  very old manuscritos numa garrafa que tanto atraia a curiosidade do jovem  Edgar Allan Poe a imaginar mil mensagens de piratas e tesouros - em visitas  e saraus meios aos comportados, disciplinados, mas também alvoroçados  alunos.  Os poemas mínimos de Diovvani Mendonça procuram captar um momento e dizer algo a respeito, algo que mereça ser dito, nem que venha soar infantil, obvio e inútil. Uma poesia simples para distrair do cotidiano - e apontar a mesmice - para descrever uma sensação e fotografar algo no fluxo do tempo -  nem que seja para fazer esquecer uma dor de dente.  Poesias que nascem da leitura de poesia, quando o poeta não nega suas  influencias - a síndrome da influencia, como diria o critico Harold Bloom -  quando segue trilhas já pisadas ou quando se desvia curioso por outras  sendas, perigosas veredas, criando um mundo novo - como fez o notável  Guimarães Rosa - com outro trajeto, outros mapas, outros pontos de referencia.  Assim vai seguindo o poeta Diovvani na Estradinha Carlos Drummond de Andrade, No meio do caminho do poeta  tinha uma pedra, tinha uma pedra.  Tinha sim, uma pedra; bem no meio do caminho dele."  E reconhece a influencia palpitante, tropeçante, palmilhante,  E que estilingue a primeira pedra,  quem disser que sou plagiador.  Que aproveito da fama do Poeta.  Eu, mero peão, doido de pedra e por pedra.  E Diovvani não "luta com as palavras" (a "luta mais vã", segundo o mesmo  CDA), decidido a esperar distraido que as palavras se aproximem e venham  brincar, "Tudo bem... admito: / sou mesmo / orelha seca / com as palavras.  // Por isso / não brigo / mais com elas / só brinco, / : bijuterias:", onde  brincando com as palavras, levemente, distraidamente, é capaz de construir  a leveza, a insustentavel leveza, da poesia,  Não me levem  demasiado a sério.  É que um vento antigo,  traquina e moleque,  desses de empinar papagaio  de taquara e seda no azul,  tem despenteado o leque  no abanar meus pensamentos.  (“Papagaiado”)  onde o poeta não pretende forçar as palavras (nem o leitor) a um formato,  a um estilo ou estética, mas soltar-se justamente dessa visão acadêmica  (e formatada) de fazer poesia. É a mesma empolgação dos modernistas,  de Manuel Bandeira, de Mário de Andrade, ou atualmente um Manoel de  Barros, quando querem subverter esses academicismos com poemas leves  (e também CDA quando começou a carreira, ou alguém já se esqueceu da  perola "Cidadezinha Qualquer"? "Um homem vai devagar. Um cachorro vai  devagar. Um burro vai devagar. Que vida besta, meu Deus")  Assim também é "Auto-elogio à minha alma-palhaça", onde a escrita é uma  caricia de uma pena desde dentro, "Não tenho penas. /Tenho pernas. / Por  isso:/ sei andar e não voar.// Mas sei que penas / de outra natureza, / também  moram / dentro de mim", é quando o poeta quer voar, aprender a voar, em  ânsias de voar, e a poesia é que acaba batendo asas alçando vôo...  fim da Os poemas de Diovvani Mendonça são de fácil digestão. Não são simplistas nem simplórios, são simples. Poeminhas. Não que sejam insignificantes. Isso já deu vazão há inúmeras e infrutíferas discussões. Como se poemas mínimos fossem poemas desprezíveis. (Coisa que José Paulo Paes demonstrou ser irreal quando ousava os famosos micro-poemas cômicos e irônicos, insistindo em brincar com as palavras)

 

 

Passarinho fofoqueiro

Um passarinho me contou
que a ostra é muito fechada,
que a cobra é muito enrolada,
que a arara é uma cabeça oca,
e que o leão marinho e a foca..
xô , passarinho! chega de fofoca!

 

Mais sobre Jose Paulo Paes em http://www.secrel.com.br/jpoesia/jpaulo.html

 

Onde a poesia é mais tecida de sensações do que de pensamentos. Ou seja, não é racional. Mas não que o poeta despreze a racionalidade. Pode fazer um poema 'racional' contra o 'racionalismo', o que lembra um Fernando Pessoa, um Moacyr Felix, um Ferreira Gullar",

 

Há certas coisas que, após entendidas,

necessitam de muito mais explicações

e perdem o mistério, a graça e o encanto

diante da revelação.

 

Pois há sempre um elemento de encanto e misterio diante da transitoriedade, da efemeridade, que perdemos é tempo tentando explicar (será devido a metafísica?),

 

Creia-me;

tudo passa, tudo gira, na órbita do transitório.

 

e

 

O que ainda não passou

é porque a flecha do esquecimento

está atravessando o tempo rumo ao alvo

onde tudo é nada, onde nada é tudo.

Tudo, nada; nada, tudo

no infinito mistério.

 

O que desperta lembranças de F. Pessoa quando dizia passarem os filósofos, mas permanecerem os poetas.

 

Inspirado pelo expressionismo de Van Gogh, sob o sol inclemente da pintura, Diovvani tece o seu ensolarado "Fogaréu",

 

e acima do chão sair pelas ruas

cuspindo palavras de fogo

nos transeuntes presos no iceberg

da indiferença urbana que a cada dia

cresce como o derretimento

das calotas polares.

 

Segue o poeta sob o sol abrasador, em pleno aquecimento global, sofrendo a  prisão da realidade que muda apenas para continuar a mesma, em asfalto e buzinas, poluição e ambições, corajoso para

 

Quebrar as algemas / no cinturão da lei. // cortar as veias da lucidez / das

minhas orelhas // cansadas de ouvir os ruídos / do mundo em ruínas // e

mudo deixar / sangrar meu gesto // enquanto me abraça uma camisa

de força.

 

Vejam no blog www.diovmendonca.blogspot.com

 

Derramando a poesia para os transeuntes, para os reacionários, para os libertinos, para as donas de casa em plena padaria, para os mendigos na Praça Sete, para os beatniks no Parque na tarde de domingo, assim divulgando a PoPoesia a pulular no dia-a-dia para fora dos gabinetes, para fora das torres de marfim, para fora dos livros amontoados nas estantes (quero dizer, estantes abarrotadas de livros que não passam de objeto de decoração), para que a poesia possa sair por aí em andanças, peregrinando, gritando, ainda que seja para poucos ouvidos (pois nem todos que ouvem, entendem, sejamos

óbvios)

 

A poesia / tem / que / ser pop / pular na panela / de pressão... / da realidade

 

e conclui

 

A poesia / tem / que/ ser pão / /e/ / para / todas as bocas

 

Assim seja. Pois se depender do poeta e agitador cultural Diovvani Mendonça

assim será.

 
* Algum lugar, dezembro de 2008.

          A Cidade enquanto espaço de Política

Sobre o poema "A Alma dos Bairros" (2004) de Vinicius Fernandes Cardoso

 

Por Leonardo de Magalhaens

  

Ao fim das Utopias, com as quedas de muro e cortina de ferro, com o declínio da Crítica Política, a Estética passou a imperar sobre a Ética, sobre a discussão dos males sociais, voltando a um esquema ‘arte pela arte’ (se é que isso existe...), deixando pouco espaço para uma crítica, exceto nas sufocadas margens, por jovens ainda sem consciência dos limites da Cidadania.

 

Aliás, fala-se muito em Cidadania e Cidadão, mas pouco se esclarece o aspecto da vida em sociedade, os Direitos e Deveres, coisa que não é disciplina escolar. Esclarecer por exemplo a importância de ser “Cidadão”, pois o próprio termo ‘política’ vem da “Polis” grega, a Cidade-Estado, onde todas as decisões importantes eram decididas em reuniões de Cidadãos, apenas os homens com família e rendas, não as mulheres e escravos. (Com o tempo, e muito sangue derramado, a Democracia ampliou as esferas de poder), daí o sábio Aristóteles dizer que “o homem é um animal político”, isto é, exerce um poder na “Polis”, a Cidade.

 

Que poder exercemos hoje na nossa “Polis”? Qual é, aliás, a ‘nossa’ “Polis”? Aqui, no poema de VFC, é a cidade de Contagem, nas bordas de Belo Horizonte, mas poderia ser qualquer outra cidade às margens de metrópole/capital. Um espaço urbano com um grau de dependência, de falta de identidade, em relação à cidade mais desenvolvida, política e economicamente. É o caso de Contagem, espalhada, sem identidade. Grande demais e suburbana, dispersa e provinciana.

 

Tanto que o Partido no poder (qualquer que seja) cria e recria a Cidade ao bel-prazer: quem ganha as eleições vai logo re-pintar os espaços públicos, com as cores do Partido vencedor (ainda mais quando o dono da empresa de tintas é parente do candidato eleito!):

 

 

A política fez uns nomes e feitos e sujou a cidade

nas cores do partido vigente.

 

 

Resultado visual e não-estético da Politicagem, sem mais nem menos, o que mostra que os políticos não ‘acham’ que o povo é idiota, eles têm certeza! Daí a indignação do Autor de “A Alma dos Bairros”, um ser que se intitula ‘poeta andejo’ ou ‘operário do ócio’, que percorre as ruas e praças a procurar então uma identidade, uma ‘alma’ dos bairros, do mesmo modo que o escritor carioca Paulo Barreto, o João do Rio, vivia à busca da ‘alma das ruas’. E o que o poeta vai encontrando?

 

Fotos, retratos embaçados, restos de casarões, imagens políticas, outdoors, templos faraônicos, religiosos anacrônicos, jovens sem rumo, excesso de luzes artificiais, tudo de metrópole, mas ao mesmo tempo, um provincianismo, um retraimento de cidade do interior, onde a cultura não acompanha o crescer de fábricas e edifícios, onde o povo não se identifica, não sente sequer saudade.

 

A história fala de fazendas e casarões que pouco inspiram saudades”, além de “títulos honoríficos”, nomes de ancestrais e fundadores, mas são “nomes que olhamos com tédio”.

 

Essa triste indiferença invade os jovens diante das imagens do passado – não gera identificação. Quem serão os ilustres desconhecidos? (Quem se lembra que João César de Oliveira, nome da longa avenida-arterial a ligar os dois corações de Contagem? Foi um mascate e o pai do nosso JK, Juscelino Kubitschek).

 

Essa falta de identificação é notória, mesmo em BH. Mas em Contagem é até absurda (ainda mais se compararmos com Betim, Caetés, Sabará, outras cidades nas beiradas, mas com identidades formadas, com história própria) a ponto de justificar a busca do Autor, mais lingüística do que geográfica:

 

 

nesta tessitura de luminares e sensações, com

limitada linguagem, o pensamento divaga sobre

Contagem” – mostrando bem que a Cidade é aqui re-criada enquanto Entidade Poética, não objeto de aula e estudos.

 

 

É justamente esta liberdade poética de ser livre, e livre observar, a possibilitar a Expressão, o devaneio, que um Cidadão não se permitiria devido aos recalques da vida normatizada, das burocracias hodiernas, como bem apontou Kafka, com seus personagens imersos em absurdos que não podem entender, apenas pode vivenciar e sofrer, passivos e desnorteados. Essa “gente de plástico em série” que vive e anda, mas escravos da Alienação, da produção em massa de mercadorias, a busca do “lucro burro”, onde até a Educação e a Cultura está à venda (quem quer, quem pode comprar?) É a Culture Industry (Indústria Cultural) analisada por Adorno e Horkheimer, em “A Dialética do Esclarecimento”(Die Dialektik der Aufklärung, 1947, no capítulo 4):

 

 

Os despertos da caverna foram para o guetto,

comercialiaram o guetto”, e “Pujante a indústria da

banalidade, enojam-me os artistas vendidos / Tudo à

venda, nenhum poema”, onde denuncia que até a rebeldia foi enlatada e comercializada, os artistas se venderam ao Deus Mercado e se deixaram escravizar também pelo “lucro burro”, porque o Mercado assim exige! E onde o espaço de Resistência? “Nossa boca porca,

com ela nos salvamos? resistimos? / Há resistência?

Há ataques-bomba.” O espaço do terrorismo imagético e explosivo?

 

 

A banalidade da Arte: pra quê? Fazer festa, gravar disco, pintar quadros, pra quê? pra vender? Assim, os artistas entram na ciranda do Capital, não são mais subversivos, ou marginais, são rapidamente ‘assimilados’, viram mercadoria e geram mercadorias (camisetas, pôsteres, CDs piratas, revistas para os adolescentes ‘rebeldes’ etc.) movimentando um dito ‘segmento de mercado’ em dos à serviço de um sistema mercenário que não deixa espaço para a inovação, a não ser que gere lucro, um “lucro burro”, a cavar o nosso túmulo.

 

Este “A Alma dos Bairros” é um poema que não sacrifica o Discurso em nome da Estética, nem a Poética em nome do Panfleto, ou seja, coisa rara de se ver (e ler) hoje em dia. Vida longa a escrita engajada do nosso poeta andejo VFC!

 

* Julho de 2009.

      Cinco anos poemando “Poemaremos sem fim

Sobre "Poemaremos sem fim" (2005, publicado em 2008) do poeta Lecy Pereira Sousa

 

Por Leonardo de Magalhaens

 

 

Cada época tem seu referencial e seu discurso, isso aprendemos em sadias leituras de Marx e Foucault, onde cada grupo social enreda e divulga um tipo de cultura, de retórica, de imaginário, que pode ser transmitido como testemunho de um  modo de vida ou lição de moral.

 

Assim, temos o século 18 com suas sátiras, o século 19 com a moral burguesa, ou as fantasias românticas, e o século 20 com a implosão da Poética, em versos descontrolados e velozes, de muitas faces e perspectivas, vangloriando-se do progresso, ou atacando a modernidade. Tivemos Fernando Pessoa (ou Álvaro de Campos) com suas odes ao estilo Walt Whitman (ver “Ode Triunfal” ou “Ode Marítima”), tivemos os beatniks com suas odes neuróticas e apocalípticas (vide “Uivo”, de A. Ginsberg, ou “Manifesto Populista”, de Ferlinghetti ) só para ficarmos nos poetas reconhecidos e declamados.

 

 

Alguns links: http://www.revista.agulha.nom.br/facam02.html

http://www.revista.agulha.nom.br/facam04.html

 

 http://www.almanaara.hpg.ig.com.br/ed2/pant2.htm

 

 http://leoleituraescrita.blogspot.com/2009/08/lawrence-ferlinghetti-manifesto.html

 

São as vozes de uma época (assim como foram “A Náusea”, romance de Sartre, e as novelas “Lobo da Estepe” (Hesse) e “On the Road” (Pé na Estrada)(Kerouac), a movimentarem toda uma geração de leitores e novos escritores, traficando influências e transpassando a leitura para virar modo (estilo) de vida. Assim uma voz autoral atingindo um status de voz coletiva, a dizer algo que pulula em miríades de ‘corações e mentes’ numa coletividade de uma época.

 

Vamos abordar aqui uma dessas vozes, que falam do Eu mas a Falar do Nós. Um texto, mas especificamente um poema (ou quase ‘poema em discurso’) que vai completar cinco anos de existência em papel e tinta: Poemaremos sem fim.

 

Poemaremos sem fim, para quem ainda não teve contato com o fenômeno, é um poema extenso, excessivo, transbordante, egocêntrico e multiculturalista (ao mesmo tempo!), de autoria do poeta e performancer Lecy Pereira Sousa, que tem em seu currículo dezenas de eventos, além de ser sócio fundador da Academia Contagense de Letras (ACL), sendo também eficiente Presidente.

 

A primeira vez na qual eu li ‘Poemaremos sem fim’ foi por e-mail (recebido em janeiro de 2005), quando ainda não havia sequer projeto de publicação (o livro PRIMEIRA PESSOA PLURAL foi publicado em  setembro de 2008) e toda a atividade autoral de Lecy era então despejada (literalmente) na rede mundial de computadores, ou, popularmente, Internet. Miríades de blogs abrigavam (e ainda abrigam) centenas de versos, crônicas, contos, e centelhas de comentários, ensaios ou considerações/desabafos extra-literários.

 

Podemos até ler o poema ali no papel, mas declamar o mesmo, ou ouvir a declamação feita pelo poeta (o autor, se possível..) é uma experiência que faz o poema emergir da folha e re-vivenciar toda a emoção que gerou a Escrita. Assim a cada leitura de Poemaremos ou ao ouvir o Autor declamar vamos percebendo o vigor, e as sutilezas, do texto. Poemaremos é um poema assim: sempre re-presentificado, sempre novo. Nunca esgotado em suas imagens e referências (que, aliás, são muitas, múltiplas!)

 

Lecy lendo Poemaremos no Youtube (no Ninho das Pedras)

http://www.youtube.com/watch?v=a-U7zwzcBIY&hl=pt-BR

 

Poemaremos é daqueles poemas que pedem uma boa paródia (assim logo escrevi uma, tanto como parodiei Ode Triunfal ou Uivo...) devido a conversa franca com o leitor, jogando como um cúmplice no meio do Enredo todo, a voz lírica sempre dizendo de si-mesma, sim, mas também de nós-mesmos (capturados para dentro do universo poético, como se um tele-espectador sugado para dentro do programa de auditório na TV)

 

Podemos dizer que Poemaremos é, de algum modo, o nosso Uivo, o nosso On the Road em prosa, o nosso Manifesto Populista, clamando aos poetas que poemar (neologismo criado pela mente inquieta do Autor) é uma tarefa árdua e constante, não é hobby para final-de-semana e feriados, é vivência concreta e esotérica (no bom sentido...)

 

De maneira concreta

Calcados na argamassa

Sabidos a diamantes

Fundidos em nobre aço

Escudados por titânio

Poemaremos poemaremos poemaremos

Poemaremos por falta de opção

Rijos tensos intumescidos

Retesadamente lascivos

Ao cair da noite & ao levantar do sol

Duros de coração

Monossilábicos átonos atônitos

 

Poemaremos por teimosia, “por falta de opção”, porque não vivemos no mundo que desejamos (se até da República de Platão, nós fomos expulsos..), porque somos inquietos, em desassossegos, e vivendo o ‘mal-estar na civilização’ (assim diz Freud, e assim concorda Marcuse), quando cada desejo satisfeito gera outro desejo, ainda mais urgente, e quando cada problema resolvido ai gerar mais problemas, num círculo

vicioso que angustia. O que resta? Se possível, mudar tudo, revolucionar! SE não, vamos ficar no ‘nosso galho’ rabiscando uns versos, e formar uma corrente de leitores, que algum dia (ah, nossas esperanças!) poderão fazer a revolução em nosso lugar...

 

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota /e adiar para

outro século a felicidade coletiva. Escreveu Drummond, em sua “Elegia 1938”, quando reconhecia seu egocentrismo em luta contra seu coletivismo, a esperar que ao menos , no futuro, um bem-estar coletivo seja alcançado. Então, agora o poeta limita-se a poemar sem outra opção (mercadológica? ideológica? circunstancial?), sperando antes de tudo comunicar (isto é, desabafar) suas verdades e suas ilusões.

 

 

Acordados sonolentos noutra parte da História

Carregando a pecha de moderninhos

Poemaremos babando ovo de algum poeta dos Oitocentos

 

E

 

Lendo os Psalmos os Lvsíadas os Contos do Decamerão

Ao vasculharmos o Livro dos Mortos e a bíblia do Cinema

Quando Júpiter estiver em Marte e a lua em Plutão

Trajando camisinhas perfumadas e cuecas samba canção

Dissolvendo poetas que desejam ser lembrados

Daqui há mil anos em meio copo d´água

Envelhecidos em tonéis de carvalho

 

Tentando digerir toda uma Tradição (que os Futuristas – e os nazistas – preferiam queimar, do que dedicadamente ler e reler) para tentar compreender a babilônia moderna, concreta e virtual, o mundo em formas e bytes, a realidade mutante e coisificante, onde somos números e somos consumidores, onde vendemos nosso tempo e nossa mão-de-obra, onde ligamos a TV e somos bombardeados por mil mentiras por minuto. E ninguém quer saber se acreditamos ou não – querem a nossa audiência e o nosso voto, querem índices no Ibope e cargos públicos, querem nossa ignorância cotidiana para manter o circo social.

 

O que Lecy Pereira faz aqui no Poemaremos é desabafar em ironias, em escárnio, um escarro mesmo, sobre a palhaçada que este mundo virou ! Nada é levado à sério – a começar por nossos pais e educadores, amigos e parceiros de afeto – a continuar no teatro dos Parlamentos e Gabinetes, onde a Política vira motivo de deboche e perde o P maiúsculo. Assim, somos despolitizados e viramos mera audiência enquanto decidem – dizem que em nosso nome - os nossos cotidianos e os nossos destinos. Para nós, só resta mesmo poemar e nada mais.

 

* Outubro de 2009.

 

Links para o "Poemaremossem fim":

 

Parte 1

http://www.tanto.com.br/lecypereira-poemaremos.htm

 

Parte 2

http://www.gostodeler.com.br/materia/2003/poemaremos_sem_fim_parte_ii.html

 

paródia de Poemaremos

http://diovmendonca.blogspot.com/2008/09/1-viva-poesia-poesia-viva-280908.html