Academia Contagense de Letras - acl

*uma flor no asfalto*

                                              TRECHO ERMO

sr. Lecy Pereira Sousa

(Tudo formatado)

 

Semovente e comovida

Há vida se interpondo

Entre as feridas da rua

 

Alguém espera que do lírio

Todo lirismo seja derramado

No copo de leite do delírio

 

Rodam miosótis nos jardins

Lá onde tranquilas

Panteras negras esperam

Que o almoço se sirva

 

(Pen Drive)

 

Reine  alegria sem preço!

Reine  amor sem termo!

Reine  paz sem dicionário!

 

Antes entre uma benção e outra

URRA a hemorragia humana

Além de bravos e vivas!

 

Lá no Vale do Silício

O silêncio é reiventado

Na tela líquida da realeza

 

(Deserto Real)

 

Cá não como lá

Enquanto segue o trecho ermo

Palavras tateiam

Emaranhada noite

Vibram e vibram

Vibram e vibram

Quando não sibilam

Novamente oscilam

Buscando a pura energia.

 

(Luz)

 

Poesia/performance,  1º lugar do Festival da Juventude de 2010.

                                         DELIZES JUVENIS

                                                               Jaqueline Oliveira Brandão *

 

 

Mãe, eu quero que esse problema,

Ele se resolva agora, já, já,

Meu pai não sabe de nada,

Eu vou pra balada, vou zoar,

Pancadão do funk na cabeça.

As meninas dançam sensuais,

Os meninos se aproveitam disso,

Fora do baile, brigas, violência,

Juventude marginalizada,

Por que tanta rebeldia?

Se Deus é manso, humilde.

Por que tanta sensualidade

Se o amor deve estar no coração?

Por que se marginalizar

Se pode ter felicidade eterna?

Os jovens precisam muito

Conhecer o grande amor divino.

 

* Jovem escritora e poetisa, radicada no bairro Petrolândia, em Contagem/MG, membro da ACL, presença regular na rádio Vitória FM, http://www.vitoriafm879.com.br, sediada à rua Refinaria Duque de Caxias, n.º 393, sala 02, Petrolândia.

O poema acima foi lido pela autora durante o 23º Festival da Juventude, agosto de 2010. A autora não é religiosa/ritualista stritu sensu, apesar do conteúdo do poema, um entre muitos da jovem escritora.

                                RECEPÇÃO NO APARTAMENTO

                                                                                          VFC

 

Num dia de semana,

Lá na Secretaria,

Chamou-me Elza

Soalheiro, a poetisa.

 

A autora de “Anel

Libertador” chamou

a um canto e lá me

fez singelo convite.

 

Iria dar uma recepção

No seu apartamento

Despedia-se dele e

recebia uma parente.

 

Havia outro motivo

para aquela recepção

me perdoe a poetisa

fiz alguma confusão!

 

Gostei do convite

Por vários motivos

Por Elza e a ocasião

e pela virtú naquilo!

 

O maldoso leitor pensa:

“Quem não gosta de um

boca-livre – bebum – de graça?”

— Não nego, leitor sarcasta!

 

— Mas conta a companhia!

Que não eram como tu – maldito!

Para quem tudo é cálculo

De custo e benefício!

 

Já com Elza dividi custos,

Já com gente pior que ela!

Já paguei por má companhia:

— Não me venha – portanto – com essa!

 

Elza, desprendida,

Ampliou o convite, disse:

“Chame acompanhante

que faça bem a teu alvitre!”

 

Chamei Thales, sem desfazer

dos demais do meu meio –

Para uns era impossível, para

outros haverá outro ensejo!

Além do mais, Thales era

o único com quem bebia

após o serviço, quando

ninguém mais aparecia!

 

E não só leitor, trata-se

De boa companhia, moço

probo e amigo, hedonista

da noite belorizontina!

 

Poderia muito aqui versar,

Justificar meu convidado,

Mas há história pra contar,

Deixemos – portanto – isso de lado!

 

Elza quis minha confirmação,

Disse: “Pode contar comigo!”

O happening era numa quarta

Que tornava tudo mais fino!

 

Sempre gostei de quebras

durante a semana que passa,

O problema é ir pro trabalho

no outro dia de ressaca!

 

Mas vá lá – seco cotidiano!

Que no capitalismo torna-se

uma busca por sobrevivência

a cata do dinheiro desumano!

 

Mas vá lá – que nem tudo são amarguras!

Que existe a cordialidade dos camaradas!

Que não precisam ser amigos nem colegas:

São companheiros das sistêmicas amarras!

 

 

  

 

 Daí o valor do convite de Elza!

Nele, ela restaurou o convívio!

Pérola que eu sempre prezei!

Convívio tão raro hoje em dia!

 

Não o convívio da família

Ou dos amigos de antanho,

Mas o convívio mais amplo,

Do nosso círculo de eleitos!

 

Lá fomos eu e o Thales

No dia do salon cordial

Cruzando as ruas cheias

até a Olegário Maciel!

 

Era dia de jogo de futebol

no calendário desportivo

Disse a ele: “Do lado do ap. há

Um bar que transmite ao vivo!”

 

— “Trata-se d’um copo sujo

freqüentado por frustrados

que gostam de ver TV e

tomar o malvado álcool!”

 

— “A cerveja é barata, os

aperitivos mais ainda,

mas nosso destino não

é esse: vamos à festinha!”

 

No saguão do prédio

anunciou o porteiro

os esperados convidados

“Pode ir você primeiro.”

 

Na porta Elza estava e

Recebeu os bons moços

Lá dentro do grande Si

Deixe-me falar d’caboclo!

 

“Si” é o Si Amaral, nasceu

em Almenara, é músico e

produtor cultural, autor de

Violar e CD instrumental! 

 

Toca música regionalista,

Toca a Música Universal,

Que fala ao intelecto e

Que fala ao coração!

 

E violou pra nós o violeiro

Quando pedi “Estampas

Eucalol” de Hélio Contreiras 

na voz de Geraldo Azevedo!

 

Palestrei sobre a letra

De magnífica composição,

Falei de Infância como um

psicanalista de plantão!

 

Foram chegando convidados:

Chegara à parenta do Paraná!

Uma loira alta de olho verde,

pele alva e face larga e firme!  

 

Foram chegando outros e outras à festa,

como Luíza, irmã de Elza, e a mãe delas!

Chegaria até cunhado que, conforme

o ditado – não é parente!

 

Lá estávamos todos nós,

Naquele belo rega-bofe!

De distraídos esquecemos

Lá até objetos de tiracolo! 

 

Discursei como presidente!

Fiz a maioria no congresso!

Fiz mote e glosei o verso!

Distrai e me alheei ao vento!

 

E hei de parar por aqui,

Já não banco o rapsodo –

Passemos ao dia-a-dia e

Até um novo encontro!

  

Vinícius Fernandes Cardoso

Sexta-feira, 28/fev/2010. 

Interpretada pelo autor no 23º Festival da Juventude de 2010 (2º lugar). Durante a declamação, tocava ao fundo o "Requiem" de Mozart, sinfonia incompleta do compositor austríaco.  

                                    ENQUANTO ISSO...

Lecy Pereira Sousa 

 

Cardoso olhou para o céu romântica e demoradamente, enfiou a mão no bolso, tirou um daqueles cigarros chiques com gosto de hortelã, menta ou cereja, mas ecologicamente incorretos nessas alturas dos acontecimentos, e disparou meio incerto:

 

— Olha, de uns tempos pra cá eu acho que o mundo já acabou.

 

— O que você está a dizer? – questionou-lhe o Pereira que nem de tradicional família portuguesa era. Nada de brasão bonito por mais que pesquisasse em bibliotecas, Internet ou onde mais fosse. –  Você parece aqueles intelectuais que cansados de tanto bombardearem o cérebro com múltiplas filosofias começam a decretar o fim de tudo. Já decretaram o fim da História, do Romance, da Poesia, da boa-vontade...

 

— Sei que está tudo acabado, The End, Finish, acho que Deus passou a borracha, insistiu Cardoso. Vai um trago aí, Pereira?

 

— Eu não fumo. Só trago aquela fumaça que sai dos canos de descarga dos carros. Aquela os livros sagrados não proíbem.

 

— Peraí, interveio Mendonça, como o mundo acabou se a gente está aqui no meio da rua nessa queimação de neurônio desnecessária e eu trouxe até uma máquina pra gente fazer umas fotos?

 

Said que acabara de chegar puxou da sua mochila de distribuidor de livretos um exemplar do seu “A Terceira Guerra Mundial”.

 

— Olá, Said. Sabe que eu gostei da capa desse seu livreto. Rapaz, que negócio mais sinistro: esse cartaz do filme Hellraizer em preto e branco. Minino, jamais imaginei que você fosse liderar um ataque nuclear diretamente de Contagem. Jamais imaginei que um jovem igual a você dominasse essa tecnologia físico-nuclear. Francamente, os tempos mudaram. Também com tantos tutoriais na Internet, deve ter neguinho... Nossa Senhora, xiii, eu não posso falar neg... é politicamente incorreto.

 

— O negócio, Mendonça e Pereira – continuou Cardoso – é que o mundo acabou e esqueceu de cair. Taí esses suspiros finais, essas últimas palavras de um moribundo. A gente tem que saber pra quem ele vai deixar a herança.

 

— Mas o mundo tem homens e mulheres demais, constatou Mendonça.

 

— E mais cachorros, gatos, galináceos, entre outros habitantes. Nunca imaginei que o mundo fosse tão promíscuo, emendou Pereira.

 

— Acontece que ninguém quer saber de mais nada, tornou Cardoso. É uma fumaiada, uma falta de compromisso danada.  Só dá estrela, todo mundo quer morrer pop star. Todo mundo quer dançar com Michael Jackson.

 

— Tô fora, apressou-se Said.

 

— Acho que o Mendonça poderia fazer umas fotos.

 

— Pra que tanta foto, Pereira? Quis saber Cardoso.

 

— Para a memória, não é? Alguma coisa precisa ficar para a memória. Ainda mais você que é um memorialista nato. Acho até que você deve ter tomado umas aulas com  o Pedro Nava.

 

— Tem um detalhe: eu e o Nava não fomos contemporâneos.

 

— Taí, você deve ter lido o cara. Então, o Nava está vivo nos livros.

 

— Cara, eu fico pensando, subjetivou Said. Se o mundo terminar que utilidade terá tantos livros?

 

— Já está tudo sendo escaneado, interveio Pereira. A idéia é guardar tudo em nuvens.

 

— Os livros serão guardados em nuvens? – duvidou Cardoso. Mendonça, por favor, tira umas fotos aí porque eu acho que todo mundo aqui está sonhando.

 

FIM – THE END – FINALE

luciano e luciana                                                     romance baseado em fatos reais

 

                  Vinícius Fernandes Cardoso 

 

 

                                                             

 

Prelúdio:

“Talvez sonhasse, quando a vi. Mas via
Que, aos raios do luar iluminada,
Entre as estrelas trêmulas subia
Uma infinita e cintilante escada.”

"Via Láctea", Olavo Bilac.

 

Deuses festeiros

 

 

 

Baco, Afrodite e Orfeu

Cada qual com sua arte,

Saíram do Ateneu rumo

A uma festa de verdade.

 

No céu, cintilavam as estrelas,

Na terra, exalavam as belezas,

Convinha, pois, chamar Réia!

Ao convite assentiu a deusa!

Sapientes, os bons deuses

Sabiam que dos mortais o

Mais bacana vem da festa

Improvisada e espontânea. 

 

Ignoraram, pois, as festas

Familiares e tradicionais,

Passaram indiferentes por

Outras mais, mui banais.

 

Quando, de repente, os Alísios

Trouxeram contentes de longe:

“É entusiasmo”, atinou Afrodite

“Do que inflamamos os homens”.

 

Rumaram os bons deuses

Para aquela dada direção,

Deram com uma casa, na qual, 

Entre risadas, vibrava o Violão!

 

“Aportemos aqui”, disse Orfeu

“Eis o lugar certo, a hora é esta.”

Abrindo o tonel de vinho, Baco:

“Um brinde à noite em festa!”

 

O entreolhar dos amantes

 

Começaram num entreolhar

Na cozinha da casa festiva,

Luciano e Luciana a imanar

Um ao outro, à primeira vista.

 

A força do corpo: Atração!

A pulsão de desejo: Vida!

A psique do amor: Identificação!

A sinastria dos signos: Sintonia! 

 

Vão às Palavras, as primeiras,

Cheias de nomes e gentilezas  

Vão aos Verbos e Adjetivos,

Vão aos Sonhos e Falenas.

 

Encontram semelhanças,

Encontram gostos comuns,

Já é alguma coisa, pensam:

“Um brinde aos bebuns!”

 

 

O primeiro beijo

 

Foram para fora

Onde, ao ar livre,

Luciano ia à forra

Com o violão riste. 

 

Virtuoso, o violeiro

Voluptuosamente

Vociferava a voz e

Volvia velozmente.

 

Luciana fez coro

Ao lado do cantor

Num acesso louco

A cantar com ardor!

 

Os dois iam unidos

Cantando com jeito 

Quando de repente

A surpresa: um beijo!

 

 

Romance I

 

No casal nasce

A paixão feroz

E logo aquece

E fica maior!

 

Mas maldoso leitor

De juízo apressado

Alto com o andor

Era romance casto!

 

Havia desejo, sim!

Natural e esperado

Mas logo ali algo

Bom e temperado!

 

Amantes experientes

Pelos deuses ungidos

Foram num crescente

Mas no tempo devido.

 

 

Viagem

 

A moça voltou ao mar

O moço ficou a sonhar

Um do outro amigos

Um do outro atados!

 

A distância era grande

Mas o afeto também

Quando chegou a hora

Luciano: “Mãe, lá vou eu!”

 

Partiu o amante,

A amada queria;

A mãe vela acendeu

Logo após a partida.

 

 

 

                                                          À Machado de Assis

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Luciano chegou

Ao sonhado destino

Luciana ali estava e

Nas faces – o sorriso!

 

 

Romance II

 

Dias de paixão,

Passados a dois,

Afrodite velava

O ninho d’amor.

 

Deus Cronos impunha

Contudo, o seu relógio!

E os amantes chamados

À Razão vinda de Apolo!

 

Escasseavam as horas,

Escasseavam recursos,

Mas o amor era grande e

Decidiram ficar juntos!

 

Luciano voltou ao labor,

Luciana veio atrás após,

E tentaram constituir lar,

Mas Marte agiu: Separar!

 

 

Despedida

 

Aquiles observou tudo

O que os deuses faziam

Julgou melhor não agir e

Do casal viu a despedida!

 

Quimera mandou temporal!

Na rodoviária se ouvia

Brothers in arms” do

Dire Straits – como chovia!

 

Não sabiam o que falar,

Não sabiam o que fazer,

O aviso soou, era a partida!

O peito disparou – não ainda!

 

Estupefato, ele via

Seu amor embarcar, e

E absorto em pranto 

Gritou: “Não se vá!”

 

 

Telefonemas

 

Atlas, compadecido,

Diminuiu a distância,

Ao casal deu mapas,

Números e bússolas!

 

 

O casal usou Correios e telefone,

Esta última invenção de Grambel,

Homem que com Atlas e Cronos,

Conspirou contra o próprio Zeus!

 

Atena, todavia, abriu asas,

Sobrevoou e viu a verdade,

Aos amantes disse: “Calma,

virá hora mesmo que tarde”.

 

Hera, impaciente, impôs-se altiva,

A grande deusa do Monte cansou

De observar a baderna no Olimpo

Designou Hermes: “Dê fim nisso!”

 

 

O tempo

 

Cronos, como sempre,

Manteve o seu andor!

E a cavalaria do Zodíaco

A brava Hera respeitou!

 

Tudo seguiu, pois, sob

A regência dos astros,

Sem caprichos e sem

Desordens e despachos!

 

Baco, Afrodite e Orfeu,

Vendo a fúria de Hera,

Botaram barbas de molho!

A terra não deram retorno!

 

Foi assim que Luciano e

Luciana ficaram anos sem

Se ver – ela desposou outro!

Ele fez tudo – sem a esquecer!

 

 

O reencontro

 

Passados anos a fio,

Longos anos divinos,

Afrodite, Baco e Orfeu

Olharam para o casal:

 

“Como pode? Um grande amor!”

“Não saiu o peito deles, jamais!”

“Devemos dar termo ao ardor!”

“Concluir o que ficou pra trás!”

 

“Que Zeus nos abençoe,

Mas voltemos ao ponto!”

Foi assim que, passados

Dezoito anos – o reencontro!

 

Luciano e Luciana reencontrados,

Ela desquitada, ele só como sempre!

Nos dois o mesmo Amor, abençoado

Pelo grande e bom Zeus onipresente!

 

                    Contagem, outubro de 2009.

                                      pai

                                                                                                  Yuri Reis *

 

Enquanto eu caminhar cativo,

Alimentará em mim o temor.

Mas nunca estarei sozinho,

Estará sempre comigo o Senhor.

 

Demonstrou Seu infinito amor,

Quando meu deu a vida.

Que para mim tem grande valor,

Por ser bela, por ser finita.

 

Antes de Tê-lo nada tinha,

Caminhava sempre aflito.

Mas hoje é um novo dia,

Tenho paz em meu caminho.

 

Quando estou sozinho,

Seu sorriso me atrai.

De dia me chama: — Filho!

De noite o chamo: — Pai!

 

 * Jovem poeta morador do bairro Santa Cruz, em Contagem. Candidato a membro da ACL.

Poesia vencedora do 21º Festival da Juventude, de 2009.

 

                                ASTRÍO

                                                Yendis Asor Said *

                                                                                                                                                Para Ana Cristina Antunes Ferreira

 

Depois que me fui, caiu de meus olhos lágrimas perdidas pelos luares tenebrosos da Ausência; senti um espasmo nesse meu procurar-por-você, um medo, e esse medo somente transfigurava a alegria de tê-la perto na ausência de minha loucura.

Ó caminhos que percorria na busca de serenidade e paz, sem você. Loucura entendida pelo meu coração, pelas vozes angustiantes do Sono; deixei-a e, pela porta da frente, ainda vi seus olhos esmerálticos brilharem ofuscando meu sofrimento; ao partir, fiquei nesse grande desalento sentido pela alma.

De repente, nesse ostracismo em que vivemos, nesse deixar-se levar-por-mistérios, eu me vi sendo guiado como por um guia de cegos para a Divindade, ao Sonho, à Hermética Solidão Panteísta por aclamá-la diante dos inúteis viventes sem alma; se eu não a aclamasse, seguiria sozinho pensando em você com meu coração estiolado.      

Nesse bailado oportuno entre meu coração e meu entendimento, fundiram-se eles em minha angustiante vida, em meu cadente espírito junto à lembrança de você ao meu lado, de seu sorriso, de sua ginoglossia familiar.

Meus inconseqüentes pensamentos somente a ofendiam, somente a deixavam delirar ante o Sonho Perdido, que enaltecia minha triste e desconsolada vida.

Enternecido eu percorro e sinto-me correr apavorado a clamar por atenção ao Delírio. Somente vejo dores ao deixá-la, somente dores sinto ao caminhar para longe de você, alma benina, alma digna e honrada, coroada de virtudes nessa terra triste e árida, e, ao deixá-la, também me torno mais um desses seres tristes perante a sua alegria... a frieza do mundo. 

 

* Escritor e poeta, membro da Academia Contagense de Letras e colaborador do Jornal Regional Contagem, onde mantém a série "Sociedade Massacrada". Autor de mais de dezoito opúsculos, distribuídos aos milhares na RMBH e alhures, escritos reunidos em obra completa, em capa dura, dividida em fascículos. Escreveu "Teoria da Nudez" e "Desejo da Carne", obra passíveis de adaptação teatral.

                            OS POETAS

                   Iracema Correa da Silva Dias *

 

Meu coração estar triste

Cheio de mágoa e rancor

Gosto tanto de você

Que  me causa tanta dor 

 

Tudo que fez a mim

Não ficará esquecido

Neste mundo tudo se paga

Voltará arrependido 
 

Eu queria ter dinheiro

E poder tudo comprar

Mas só tenho amor e carinho

E tudo que posso lhe dar 
 

Você e muito importante

Mas não sabe seu valor

Anda segundo os outros

Se tornando um perdedor 
 

Seu valor é muito grande

Nem imagina a imensidão

Olha para todo mundo

Menos dentro do seu coração 
 

Quem tem dinheiro compra tudo

Tudo que pensar 

Mas o verdadeiro amor não

há dinheiro que possa pagar 
 

Errar é humano

Permanecer no erro é burrice

Continuar errando é doideira

Ficar só olhando isso é tolice 
 
Versos alegres e infantis

Coisa antiga mas com emoção

Nasce no fundo de minha alma

De dentro do meu coração 

 

O amor que trago em mim

É tão grande e tão profundo

Se eu pudesse nesse momento

Abraçaria  todo o mundo 
 

Amo tudo que é bonito

Amo tudo que posso ver

E somente por isso querido

Que eu amo tanto você  

 

Não lendo esses versos

Não venha me criticar

Faço versos por amor

Isso não dá pra explicar 
 

Escrever no papel é fácil

Qualquer um pode fazer

Quero ver você colocar

No papel o que há dentro de você 

 

Nesse teu peito amargo

Cheio de amargura e dor

Buscando, gritando socorro

Implorando por meu amor 

 

Estou escrevendo mas

não sou poeta, não sou escritor

Apenas sei escrever

Poesias  para o meu amor 


 
Acordei de madrugada

E comecei a pensar: o que e ser poeta?

Comecei a meditar; então veio uma voz

lá do fundo do meu ser e pôs-se a falar:

“Vou lhe dizer o que é ser poeta

Pode agora me escutar?” 

 

Ser poeta é trancar

No peito a própria dor

Sorrir constantemente

Como um palhaço sem amor 

 

Ser poeta não e só escrever

Fazer rimas e frases bonitas

Versos e às vezes coisas esquisitas

Ser poeta é deixar a própria alma aflita 
 

Ver seus  sentimentos afogando

Nas suas próprias lagrimas

Ser poeta e ter que agüentar

Nas costas suas cargas pesadas 

 

 

 

Sempre incompreendido

Travando uma luta sem fim

Ser poeta meu amigo 

É para todos, mas não é tão fácil assim 
 

Nunca tenha medo de dizer

O que sente no coração

Ser poeta meu amigo

É sempre estender as mãos 
 

Ser motivo de risos

Às vezes chamado de louco

Ser poeta é olhar do alto

E dizer “De tudo sei um pouco” 
 

Não me julgue por escrever

As coisas que aqui estão

É que eu queria ser poeta

Com todo meu coração 

 

Estou aqui para dizer, ouvir e aprender

O que vocês estão sentindo

Poetas loucos tortos mal amados

E nunca escutados 
 

Deixados sempre para depois

Nunca levados a sério

Ser poeta neste mundo

Tem que ter muito lero lero 

 

Fui a um acontecimento

Vi poetas de todo os tipos

Vi ouvi coisas diferentes

Foi tudo isso que mexeu comigo 
 

Todos deveriam ouvir 

Pelo menos uma vez

Aí é que vão entender

Há um poeta em vocês 

 

Meus irmãos poetas

Amigos de coração

Neste momento importante

Espero que me entendam as mãos 

 

Mãos cansadas e sofridas

Mas que nunca se entregam

O cansaço do dia a dia

O poeta sua cruz carrega 

 

Carrega sua cruz com dor

Suor, sofrimento e amor

Sempre incompreendido

O poeta é um ator 
 

Representa dia a dia

Toda e qualquer  situação

Quero dar os parabéns

Aos poetas desta nação 

 

Quando bate o sofrimento

Ou uma dor sem fim

O que me mantém forte

É deus e o poeta dentro de mim 

 

A vocês grandes poetas

Fica aqui minha admiração

O carinho desta pessoa

Que traz a poesia no coração 

 

Falar de flores é fácil

De dor nem tanto

Falar de poeta é fardo

Pesado, jogado num canto 

 

Amores perdidos e esquecidos

Atuais e constantes

Amores brutos ou calmos

Poetas, vocês são eternos amantes 

 

Tudo nesta vida é passageiro

O dia, o ano, a dor, o amor

Mas o que o poeta escreve

Há  isso fica, não passará, meu Senhor 

 

Deus fez muitas coisas importantes

A mulher e o homem nem tanto

Fez animais maravilhosos

E jogou os poetas num canto.

 

* Iracema Correa Silva Dias é a mãe de Sidney Rosa Dias, o   Yendis Asor Said, tendo o estimulado no gosto pelas letras.   

                            NATAL UNIVERSAL

                                                                      Kennedy Cândido

 

As lágrimas nas trilhas do sofrimento... Quanto tempo desperdiçado neste ano que passou? Sonhos, ilusões, tanta violência, mágoas, tantas pessoas, próximas mas distantes umas das outras, solidão, abandono. Até mesmo as palavras foram esquecidas, saudades...

Recomeçar é preciso, união, amor, a poesia na alma de cada ser... então navegar na liberdade, brincar com as crianças no quintal, pelas praças do universo, encontrar a esperança nos olhos do amanhecer! Despertar num Natal Universal, escrever uma nova história....

 

Ilustram as páginas coloridas de um bem querer, lembrar que ninguém faz tudo sozinho, boas vibrações para aqueles que ajudam a seguir um caminho de luz, pela paz, amizade e amor, quando vêem uma lágrima pequena transformar num grande sorriso, não apenas no Natal, mas em todos os dias...

 

Vinho, cálice de alegria, champanhe, um jantar a mesa, ceia de Natal, união familiar, que a paz no universo não esteja apenas no pensamento, mas que seja real! Enquanto na fartura e desperdício, alguém vive de migalhas e outros de mentiras, mas ainda esquecemos tudo e renasçamos...

 

Natal Universal, plante a semente da paz, a esperança, a bondade nos corações humanos! Faça novos amigos, encontre novos caminhos, novas vitórias. Coração da cidade iluminada, seja um espelho cristalino, espalhe o amor em todos os lugares!

 

Natal de esperança, escreva uma nova história no universo, seja um quadro vivo, entre o dia e a noite, entre a lua e as estrelas, entre o sol e a chuva, seja uma estrela humana que brilhe para sempre, unir-se a outras estrelas...

 

Uma constelação humana, no espaço estelar, mude a história do universo e não será apenas um sonhador embalado no nosso sonho da paz, será uma eterna criança, capaz de enxergar as lágrimas do mundo, alguém precisa tanto do seu amor!

 

Num encontro marcado mágico, viva o maior Natal de suas vidas, duas vidas ou mais, como espetáculo de multidões... são apenas luzes acesas de esperança de um mundo melhor... então é Natal, Happy Cristimans, faça sua nova canção!

 

Um feliz Natal a todos!

 

* Poeta e prosador poético, membro da Academia Contagense de Letras, com várias colaborações no Jornal Regional Contagem. autor de livros de poesia como "A Essência Encantada" e "Asas da Liberdade", esses analisados pelo crítico Leonardo de Magalhaens e muitas outras composições. Participou de concursos e festivais literários, tendo se destacada pela performance lírica e a voz radiofônica. Mora com a mulher Sonilde no bairro Novo Eldorado, em Contagem.  

LOUCO                                                                             joaquim barbosa

Será que sou um louco? Ando falando sozinho, tento descobrir quem sou. Queria ser capaz de descobrir de vida tão sofrida. Por mais que tento, não sou capaz de saber. Gostaria de caminhar pelo universo para entender os mistérios que existem entre o céu, a terra e as galáxias. Depois de tantas tenta­tivas des­cobri a verdade. Eu estava fora da realidade. Deus nos deu o limite para que não fôssemos além. Precisamos respeitá-los para assim comunicar com o grande Deus.

            Todos os dias, pela manhã, eu pedia a Ele a paz, e fui descobrindo que Deus estava sempre presente em cada passo, cada minuto, cada lágrima que eu der­ramava em meu rosto, e em cada dor que meu coração sentia. Ele sabia tudo que eu pensava e falava. Foi assim que eu comecei a caminhar certo e ter uma vida alegre. Valeu a minha grande luta, passei a ver a vida com um olhar mais verdadeiro. Conquistei a sabedoria, cultivei grandes amizades. Viajei por vários estados e suas cidades e descobri que a vida é o grande mistério.

            Só Deus pode saber de tudo e de todos que vivem neste universo maravilhoso. O segredo de nossa existência pertence a Deus. Ele nos deu tudo para sermos felizes. Precisamos acreditar, pois ele não iria criar este mundo para vivermos na miséria. Deus nos deu tudo para que pos­samos viver com dignidade sem ter que menosprezar os outros. Hoje posso buscar outros co­nhecimentos e novos caminhos. Estou feliz por ter conquistado o autoconhecimento, e por ser filho de Deus.

 

IMAGEM-NAÇÃO                                                                                         Fernando januário

 Sobre o que eu vou dizer

Preste muita atenção

Tem imagem que é fantasia

Mais do que uma ilusão

 

Ela te mostra coisas

Que para ter é impossível

Sua vida é baixa

Não é do mesmo nível

 

O desespero de quem mostra

Não é o da fome

São os milhões que guardam

E que escondido consomem

 

Aqui fora a realidade

Anda com a dor

A revolta te abraça

Todo mundo com pavor.

 

O CAOS É SÓ O VAZIO GRITANTE

Lecy Pereira Sousa

 

 

 

Dizem que um pingo é letra, para quem tudo entende. Dessa forma segue tudo virando pingo diante da incompreensão, enquanto uma escritora vaga pelo descampado, ao luar da meia-noite, buscando ins­piração. Ela parece levitar, sensual, lânguida, um luxo escrito. E as palavras dela se esquivando, exibindo disfarces. Palavras-moitas-de-coroas-de-cristo, palavras-pingos-de-tinta-nanquim-sugadas por um gigantesco papiro que era o chão da meia-noite em que ela pisava pouco inspirada, mas com pés de algodão, alvos. No final das contas, ela era o alvo das palavras proscritas e de baixo calão, por falta de criatividade. Piranha, cadela, vaca, égua, a fauna inteira prostituída. Seu projeto de Hilda Hilst descabelada e maltratada. E se o cheiro de "dama da noite" em suas narinas chegar, não é o estalo criativo, mas a proximidade da morte esquelética com seu capuz e sua foice simbó­lica e seu riso sinistro, qual hiena: há-há-há-há-há. As palavras, agora, sugerem caveiras oscilantes, imagens disformes capazes de provoca­rem arrepios nos pelinhos do ânus. Nada está oculto, senão a veia criativa. A escritora está nua e coberta de pássaros-enigmas, sob o luar da meia-noite. Se pombos ou corvos, difícil dizer. Talvez beija-flores, que fazem amor com as flores, beijando o sexo da escritora dramática. Um clima nada inspirador. Aliás, tudo inspira dor no mundo da correria insana e do tempo campeão imbatível na prova dos cem metros rasos e fundos e dos homens amantes de bombas e facas e tiros e sangue como groselha em cataratas. As palavras ânus, va­gina, pênis e sêmen causam espanto, mas a violência dos moralistas é respeitada. Enquanto isso a escritora, que não tem medo de Virgínia Woolf, busca, apenas, uma palavra de conforto nessa fronteira entre um e outro dia. Começa a chover e essa chuva é de pingos negros e são palavras molhando a escritora e já que a água fertiliza o solo e ela anda sobre papiro, então chovem palavras, explícitas, prontas para germinarem as sementes da criação. Entre um pingo e outro, o cére­bro da escritora foi martelado pelas seguintes palavras: "o caos é só o vazio gritante".

 

 

 

CREIA-ME
Diovvani Mendonça

Creia-me;

se Freud até hoje não lhe explicou
aquela velha canção do Zé,

deixe estar.
Há certas coisas que, após entendidas,
necessitam de muito mais explicações
e perdem o mistério, a graça e o encanto
diante da revelação.
 
O bom é não ser absoluto, profundo,

bom é ser raso e solto no mundo.
O bom é não ser imã de geladeira,
bom é não marcar bobeira,
não se colar em nada, nada, nada.
 
Creia-me;
tudo passa, tudo gira, na órbita do transitório.
Passa o carro, passa o moto-boy, passa o avião
e sei que vai passar até o porre dessa cachaça.
Passa macaco, passa o papagaio, passa o gavião
e sei que vai passar até o ar dessa graça.
 
O que ainda não passou
é porque a flecha do esquecimento
está atravessando o tempo rumo ao alvo
onde tudo é nada, onde nada é tudo.
Tudo, nada; nada, tudo
no infinito mistério.
 
Creia-me;
se Nietzsche passou,
se Lennon passou,
se Jobim passou,
se Wally Salomão passou,
se passou até o profeta gentileza,
se tantos outros também passaram.
 
Condeno-me então

a desaparecer no salto mortal,
entre um segundo e outro,
na fumaça da pólvora,
na poeira do esquecimento.

CANTO DE ESPERANÇA AOS MORADORES DOS SUBÚRBIOS Gilmar Silvério Rodrigues *

 

Já de manhã o sol é tão belo e cálido

Quanto a esperança que reside no coração

Do subúrbio ainda adormecido

Embalado por tantos sonhos...

Como é lindo aquele sol que sempre acorda primeiro...

É sempre igual para todos.

 

Há tantas roupas nos varais

E nas cercas de arames farpados

Há trepadeiras que se alastram, incertas.

Barracos feitos de tábuas

Com lonas substituindo telhas

E panos sujos substituindo as portas e janelas.

Há uma ansiedade em cada canto

Debaixo de cada teto, dentro de cada coração.

Há uma tristeza ardendo no peito

E uma saudade fria umedecendo os olhares

Que se perdem nas distâncias

E buscam nas cidades, um abrigo, um agasalho

Um pão para matar a fome

Que faz doer o estômago.

Quando a tarde começa a cair.

 

Já de manhã

Quando o sol começa a sorrir

Portas são abertas lentamente

e surgem rostos sonolentos

Abatidos e cansados de olhos desanimados.

Depois,

Colchões e lençóis encardidos

São postos à luz matutina

Ao calor reconfortante, da manhã divina.

Segue-se a vida: correria...agitação...luta!

Constante luta!

Em prol da vida, própria vida.

Em prol da vida dos filhos.

Como é difícil manter acesa a chama do sonho!

À noite,

Pesadelos horripilantes assaltam o sossego, a esperança...

                                                               ...a paz!

...E o dia seguinte é cheio de problemas e desilusões.

Segue-se a vida: doída...ferida...esquecida...

                                                               esmagada!

Mas...eis o protesto; o meu grito de irmão:

Favela!

Por que confiscam os seus sonhos

Retribuindo-lhe...pesadelos?

Por que não reage?

E solta esse seu grito

Preso na garganta há tanto tempo?

Por que fica inerte encolhida na própria desilusão

Enquanto roubam o que você tem

E o que você ainda não tem?

Pôxa...é admirável o seu bom senso,  a sua sensatez!

 

Favela!

Ouça o apito do trem...

Não dói o coração?

Pessoas indo e vindo, sempre apressadas.

Homens trazendo as marmitas vazias,

E o coração também vazio de esperança.

Mulheres trazendo sacolas...

Crianças correndo em busca de abraços e...

— Mamãe...cadê o meu biscoito?

— Mamãe esqueceu, amanhã...

 

 

 

Como alimentar todos os sonhos

Dessas crianças que ainda não perceberam a vida?

Haverá sempre um amanhã...?

Favela. ah! favela...

Não curve a sua cabeça

Sob o olhar sarcástico e sádico da cidade.

Antes, sorria...e mostre o seu lado humano,

A sua coragem, o seu otimismo...

                               A sua crença na esperança!

Não deixe que esmaeça o brilho intenso

                               do seu olhar.

Favela.

Favela do marimbondo

Veja seu quadro hediondo:

Quantos marginais, quantos beberrões.

Quantos menininhos barrigudinhos...

Quantos menininhos sujinhos...magrinhos...

A chuva vem e você vai.

A enchente levanta e você cai!

Favela.

Favela do troca-tapa

Neste ano você escapa!?

Quanta desilusão...quanta melancolia

Pairando sob o seu dia-a-dia.

Mas,

Olhem as estrelas...

Não são iguais para todos?

O céu que cobre a sua dor

Não é o mesmo que cobre a felicidade de outrem?

Assim

Deus é igual para todos.

“Bem-aventurados são os pobres...”

Não há motivos pra você se entristecer

                                               tanto.

Vamos! sufoque o seu pranto

E entoe um canto,

Que traga esperança para o povo, o seu povo,

Fazendo-o sentir novo...

Favela...

— Piiiiii!... lá vai o trem!

Voltará breve, à tardinha

Quando não houver mais sol,

E vomitará pessoas cansadas e famintas,

Que lutaram o dia todo

Para trazerem pão para os filhos.

Sim. pão para matar a fome...que consome.

Bom mesmo, é sofrer com dignidade,

Para depois colher os frutos

Adquiridos pelo sofrimento.

Favela...

Hummm...que cheiro bom de café...

...E que gosto bom de esperança!

______________________

(In Quando florir a primavera...

Contagem: Edições Amém, 1986. p.10)

 

 

 

Homenagem póstuma a Gilmar Silvério Rodrigues, policial, morto em serviço. Morava com a família no Conjunto Habitacional Colúmbia, perto do bairro Monte Castelo, em Contagem. Gilmar, quando jovem, publicou um livrinho de poemas de inspiração evangélica, pelas Edições Amém. Em 2001, em visita ao apartamento onde morava com a família, Gilmar me disse que se tratava de poemas imaturos, de juventude. Apesar disso, encontrei um poema interessante no livrinho, aqui publicado, de valor histórico, geográfico e lírico. O passamento do poeta foi comunicado na Rádio Abóboras, a meu pedido. O poeta ainda disse que escreveu textos na maturidade, que cogitei resgatar para a Academia Contagense de Letras publicar postumamente, o que não aconteceu.

(Vinícius Fernandes Cardoso

 

       personalidade

Jaqueline Oliveira Brandão

 

Saiba que uma pessoa vive várias pessoas 

Porque há mudanças,

Uma criança pode ser muitas,

Bonita, feia, calada, barulhenta,

Um adolescente muda bastante,

Às vezes adulto, criança,

Quieto, rebelde, católico, evangélico,

Depende da hora, momento,

Lugar, época, fase,

O adulto se transforma mais (ou menos),

Depende da época, (um acontecimento significativo),

Enquanto a criança depende

(do momento, e das pessoas).

Dentro de mim existe várias (moças),

Quieta, ingênua, simples, apaixonada, mudada constantemente

Por um tratamento psicológico,

Mas com um pouco do antes,

Aprendendo mais, fazendo planos,

Até mudar, e continuando a viver,

Quando uma doença me muda novamente,

Há uma separação, um fim,

Morre mentalmente uma parte de mim,

Fico completamente alterada, sou outra,

Como nunca imaginei.

Outro tratamento acontecendo,

Outras mudanças surgem,

Algumas atitudes voltam,

Não sei se morri, mas voltei,

Não sei se completamente,

Porém estou voltando e refletindo.   

O tratamento médico continua

Não sei até quando, mas

Eu estou voltando,

Refletir... vocês... devem...

 

Filha de José Carlos Brandão e Maria Clarete Oliveira Brandão, Jaqueline Oliveira Brandão nasceu a 21 de janeiro de 1981, em Montes Claros, Minas Gerais. Seus escritores prediletos são Machado de Assis, José Lins do Rego, Pedro Bandeira, Marcos Rey e Emily Bronte. Escritora, possui alguns romances prontos a espera de publicação. Confeccionou livrinhos artesanais com prosas e poesias suas e vendeu vários deles cidade adentro. Divulga seus textos na Casa da Família do bairro e no Centro Cultural Petrolândia. Seu poema “Personalidade” saiu no Jornal Regional Contagem de novembro de 2006. De abril de 2009 a julho de 2009, teve oito participações na rádio comunitária Vitória FM (sintonia 87,9), com sede no bairro Petrolândia, onde o locutor Edson lhe deu muito apoio. Conta com apoio da Casa da Família do seu bairro e eventualmente do Centro Cultural Petrolândia. A partir de fevereiro de 2008, deu largada a uma série de livrinhos com  poemas seus, feitos a mão, de forma totalmente artesanal, e, aceitando sugestão dos leitores e compradores, fez chamadas para os livrinhos, informando o conteúdo destes, auxiliando as-sim o leitor. A escritora percorreu as ruas do bairro Petrolândia, São Caetano, São Luís e Eldorado, vendendo seus livrinhos, o que lhe ajudou na renda familiar. Os livrinhos da primeira fase são: “Fortes emoções”, “Grandes exemplos”, “Defeitos desastrosos”, “Lindíssimos”, este um sucesso de vendas, exigindo nova tiragem, “Acrósticos maravilhosos”, “Precioso emprego”, “Arrepiantes”, “Lindas festas”, feito no final do ano de 2008, “Personalidades difíceis”, “Essenciais”, e, da nova fase (2009), “Tesouro familiar” e “Belezas culturais”. Tímida quando foi descoberta pela primeira vez, Jaqueline jamais subiria num palco para declamar uma poesia sua. Depois de ganhar experiência, perdeu o medo e subiu ao palco do “Arraial do Tropical”, acontecido em 11 de julho de 2009, para declamar sua poema “Minha Divina Inspiração”. A escritora também escreve prosa, tendo contos, crônicas e romances inéditos. Membro da Academia Contagense de Letras a tomar posse.

       entendimentos

          Por Deiwson Ferreira de Magalhães (Magal)

            

            

             Quando a solidão ataca inexplicavelmente,

quando um ser encontra dentro de um recinto

onde o eco do suspirar e pensar invade o ambiente,

sentimo-nos isolados e inválidos.

Quando não se encontra nos livros o desejado,

quando não se encontra na música a paz interior,

 quando não se encontra na natureza

a veracidade da terra,

nos achamos loucos, um equívoco espacial.

Quando a devassidão corrói

arrancando todas as fibras,

quando fuzila nos ouvidos a culpa alheia,

quando os quadros e gravuras

começam a revelar críticas

vejo que não sou o único errado.

Quando nota-se a presença do distante,

a saudade que se aproxima, o correr sem forças,

pressentimos que existe mais alguém.

Quando a vontade de fugir,

por não agüentar a forma de auto-visão,

quando o travesseiro retruca

e o olhar transforma em fúria

começo a ver o fim.

 

(In Pensamentos de um sonhador (2001), p. 21)

 

 

 

 

SAIBA

Por D.F.M

 

Nem sempre és tu

o rei de teu reino.

Nem sempre és tu

o herói de teus sonhos.

Nem sempre és tu

a rosa de teu jardim.

Nem sempre és tu

o mocinho de tuas fantasias.

Nem sempre és tu

o brilho de teu ouro.

Nem sempre és tu

a verdade de tuas palavras.

 

(Idem, p. 43)

 

 

Deiwson Ferreira de Magalhães é filho de Geraldo Gonçalves de Magalhães e Maria Ferreira de Carvalho, nascido a 10 de janeiro de 1967, em Contagem.

      Em 1986, ingressou como Soldado no 18º Batalhão da Polícia Militar, sendo promovido a Cabo em 1992, a 3º Sargento em 1993 e 2º Sargento em 2002.

      Casou-se com Jussara Alves Silva em 1996 e dessa união nasceu Guilherme Augusto de Magalhães, o Guto.

      Em janeiro de 2000, lançou seu primeiro livro intitulado “Pensamentos de um sonhador” (poesias). Ainda no mesmo ano, de sua união com Susanley Rosa Cristina, nasceram seus filhos gêmeos Thales Alexander Ferreira de Magalhães e Thiago Vinícius Ferreira de Magalhães, que no seio da família são carinhosamente chamados respectivamente de Tará e Tintim.

      Em 2001, participou de um concurso de poesias promovido pela Litteris Editora, com sede no Rio de Janeiro, e teve os poemas “Ao alcance das mãos” e “É verão” classificados e fazem parte da antologia “Grandes Escritores de Minas Gerais”, vol. II. Participou também de um outro concurso, promovido pela mesma editora e o poema “Único” foi classificado e faz parte da antologia “Anuário de Escritores 2001”.

      Em janeiro de 2002, classificação do poema “PMMG, a história em poesia”, o qual é parte integrante do livro “Contos e Poemas do Brasil” – vol. V, cujo lançamento ocorreu no mês de março de 2003, na cidade do Rio de Janeiro.

      Buscando aperfeiçoamento na área, participou das oficinas: “Iniciação poética” e “Interpretação da literatura infanto-juvenil” ocorridas na feira do livro em abril de 2000 na Serraria Souza Pinto, e um curso de “Estratégias textuais”, na Faculdade Newton Paiva em 2001, através de um intercâmbio com a PMMG.

      Em agosto de 2003, participou da oficina “Poesia, emoção que não dá trabalho” durante a 4º edição do Salão do Livro de Minas Gerais.   

      Participante do Movimento Pasárgada de Arte e Vida.

      Membro da Academia Contagense de Letras a tomar posse.

       amar a lua

Adriano Ribeiro


Ah! Lua
Por que fazes isso comigo
Que muito lhe estimo

Ah! Lua
Que brilha! Que rejubila!
Que amacia e provoca o desejo
De com ela Amar


Beijar e envolver
Salivar e colher
Encontrar e sentir
Da sua boca o bulir
dos sentimentos

Desejo-lhe sempre
Como se somente existir
Mulher morena de sorriso cativante e provocante

Mas é só no sonho
Que às vezes enganam nosso caminho

Por que? Porquê?
Minha filosofia de amar
Não encontra alguém que possa entender...

Quem sabe um dia! Quem sabe pai eterno
Quem sabe coisa melhor me aguarda

Nesse caminhar finito
Que namorar é infinito
Quando se vive esta vida
Porque outra não temos! Porque? Por quê?

Amar sem corresponder
Com alguém sem querer
Terminou com você
Por te querer! O que fazer? A resposta é VIVER.

 

Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos, Volume 14.